segunda-feira, 16 de março de 2009

CAPÍTULO XVII - A ÚLTIMA DECISÃO

Na Quinta Soares de Almeida a atmosfera era doentia. Pela manhã de todos os dias fossem eles domingos ou feriados, chuvosos ou resplandecentes de sol o seu aperitivo era trabalho. Trabalho esse que não cessava desde o nascer ao pôr do sol. O seu início já contava dois anos de prolongamento.
__ E até quando __ perguntavam as crianças, entre si, todas as manhãs quando sentiam abrir a janela do quarto, muitas vezes deixando entrar a chuva, o vento e se ouviam os gritos do pai.
__ Levantem-se. Teresa são horas de apanhar erva para as vacas. E tu João vai limpar as cavalariças e dar de mamar aos vitelos.
E é assim no meio de toda aquela algazarra que as crianças saem da cama às sete horas da manhã de todos os dias. A senhora D. Judite levanta-se à mesma hora e vai para a cozinha aprontar o café com leite. João Reis depois de deixar discriminado o trabalho para os filhos para aquele dia e de tomar o pequeno-almoço vai para o campo amanhar as terras.
Por volta do meio-dia o carteiro da zona postal chega à quinta com uma carta. A mesma é portadora de más notícias. A mulher reúne todas as suas forças e chama os filhos:
__ João. Joaquim. Teresa. Venham cá! Sentem-se aqui junto de mim __ diz a mulher para os filhos e recomenda. Teresa, tu como és a mais velha vais ouvir o que te digo: a mãe vai ao hospital de Lagoa ver o avó que está doente e, tu cuida dos teus irmãos. E ouve! Se teu pai vier a casa diz-lhe que a mãe foi fazer compras. Sim?
__ Sim mãe vá descansada __ diz repentinamente Joaquim. A mana cuida de nós e eu também a ajudo.
__ Está bem __ diz-lhe a mãe carinhosamente. __ Vá agora venham almoçar.
No hospital a senhora D. Judite ao entrar dá de frente com os olhos em Isabella que caminhava de um lado para o outro no corredor do hospital. De momento as duas se abraçam num longo abraço. D. Judite ao ver a filha vestida de preto, pergunta:
__ Isabella como está o avozinho?
__ O avozinho não está mãe...
__ Como não está... e a avozinha?
__ A avozinha está lá dentro. Não sei bem porquê... mas...
__ Mas o quê Isabella?
__ O avozinho morreu mãe...
__ Morreu? Mas como morreu? Ah! Mas quando? Meu pobre pai __ Balbucia a mulher soluçando enquanto abraça a filha.
__ A avozinha está lá dentro creio que para despachar o funeral.
__ Ah, sim! Deve ser isso. Há que fazer a escritura para a última morada. A morada para a qual todos temos o mesmo fim. Embora alguns com a ajuda de substâncias químicas tenham um fim do fim mais prolongado, mas todos nascemos na terra e morremos nela pela mesma ordem: nascer e morrer. Desaparecer da terra para sempre ficando, apenas, no coração dos ente-queridos, a recordação de ter vivido: é o destino de todos nós __ diz D. Judite com magoa.
Depois do funeral João Reis procura falar à filha. Esta que ao princípio recusou ouvir o pai decidiu em último caso ouvi-lo. Dizendo-lhe:
__ Pai disse-me a mãe que o senhor me quer falar. O que tem para me dizer? __ Pergunta Isabella segura de si.
__ Isabella __ diz o homem olhando a filha nos olhos. __ Agora que morreu o teu avô vais ficar só com tua avó.
__ Sim meu pai. Eu ficarei com a minha avozinha. Trabalharei para o meu sustento e o dela. Pois agora que ela nada tem é justo que eu queira retribuir-lhe um pouco, daquele muito, que ela me deu.
__ Vais trabalhar vais e é lá na quinta com os teus irmãos __ diz maliciosamente João Reis enquanto dá uma gargalhada sinistra.
Isabella olha o pai e sem nada dizer deixa-o só. E quando chega junto da sua mãe e da sua avó, diz:
__ Avozinha, aqui, já nada temos a fazer. Vamos para nossa casa __ as duas mulheres entre olharam-se em silêncio. Até que a senhora D. Isabel interrompeu o silêncio dizendo:
__ Sim, filha, vamos. E outro dia podemos ir à Quinta Soares de Almeida ver os teus irmãos. Agora vamos para nossa casa.
Depois das despedidas a Senhora D. Judite abraça a filha e baixinho ao ouvido pronuncia:
__ Isabella quando quiseres ir à Quinta vai. E pensa bem filha. O teu pai talvez tenha razão. Tu connosco estavas melhor. Agora que o avozinho faltou tens de ir trabalhar para comer.
__ Está bem, minha mãe __ interrompeu Isabella. __ Quer dizer que eu na sua casa não trabalharei ou a minha mãe não chama trabalho apanhar erva para as vacas, para os porcos, para os coelhos e sei lá que mais? E ainda limpar capoeiras? Não, minha mãe. Não irei, mesmo que tenha de pedir esmola, não deixarei minha avó. E irei trabalhar. Ganharei para o meu sustento e o dela. Adeus minha mãe até qualquer dia. E diga a meu pai, agora que é rico, que não se envergonhe por eu ir trabalhar ou pedi esmola... porque eu, minha mãe, uma coisa ou outra farei. Adeus!
Já no táxi a Senhora D. Isabel espera a neta. E com um lenço branco orlado a preto acena à filha uma última vez.
Isabella no banco de trás do táxi ao lado da avó é conduzida a casa. Casa onde iriam viver: avó e neta.

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Tenho bom coração, bom carácter, gosto da humanidade em geral, gosto de crianças... diversão: gosto de ler, de escrever, conviver, gostava de ter amigos verdadeiros, como divorciada não gostava de envelhecer sozinha, estou em casa sempre que não trabalho... e gostava de ser mais feliz... encontrar alguém para amar e fugirmos à monotonia.