quarta-feira, 25 de março de 2009

* * *

Na fábrica conserveira a "Galinha", as operárias trabalham alegremente quando o autofalante do escritório principal chama a atenção das mesmas, para uma notícia:
__ Senhores e senhoras atenção! Como sabem a fábrica tem peixe para trabalharmos todo o dia e ainda para as próximas horas de amanhã. Eu, em nome da gerência, peço a compreensão de todos para o que lhes vou dizer e ainda a calma para a má notícia que lhes vou dar __ O homem parou de falar. Parecia não querer chegar ao fim. Por fim, diz. __ Como ia a dizer tenho uma má notícia para vos dar e, para a qual peço a calma de todos vós. A notícia é a seguinte: __ Amanhã é o funeral de uma operária deste fábrica e dadas as circunstâncias da sua morte e, ainda tratando-se de Maria José, a gerência dá o dia de amanhã para todos poderem acompanhá-la até à sua ultima morada, mas como temos muito peixe e não o podemos mandar fora temos de trabalhar hoje até à uma ou duas horas da madrugada! Estão de acordo?
As mulheres gritavam, falavam alto, ninguém se entendia naquela empresa. O autofalante voltou de novo a soar:
__ Então! Então! Eu tinha-lhe pedido calma! Concordam ou não com a decisão da gerência?
A mestra que tentava a todo o custo acalmar as mulheres, fala em nome destas:
__ Sim, Senhor Aguiar! Vamos trabalhar até acabar o peixe.
Assim aconteceu. Eram já duas horas da madrugada quando as mulheres voltaram para casa.
Às onze horas desse mesmo dia começaram a chegar ao casebre da quinta pessoas de todos os lados para acompanhar ao cemitério, o corpo daquela que lhes era querida.
Além de familiares, colegas de trabalho e amigas chegaram pessoas anónimas, que, corriam apenas ao sabor do trágico acontecimento. E, ainda, à beira da estrada ( a todo o percurso que se calculava em cerca de dez quilómetros) havia pessoas que esperavam ver e acompanhar Maria José à última morada.
Chegados à vila, depois de grande percurso a pé, o corpo de Maria José foi mandado à terra. Sem padre, sem missa de corpo presente. Havia apenas muitas flores, muita dor e muitas lágrimas derramadas dos olhos de amigas/os que com ela conviveram e de perto testemunharam a sua dor e o seu desespero que a levou à morte. As suas amigas mais chegadas que eram mais ou menos da sua idade fizeram questão de se vestirem de branco tal qual como a cor que a vestiram. Mas as suas amigas estavam lindas vestidas de branco e sobretudo com vida e seguravam as borlas do caixão e rezavam a Deus pelo seu perdão. Perdão?! Perdão para um crime que alguém a ajudou a cometer e si mesma. Isabella ali presente estava tão absorvida nos seus sentimentos, quando a sua avó lhe diz:
__ Isabella, anda vamos embora? Já cá não está ninguém.
Isabella olha a avó e ao mesmo tempo volta a olhar o monte de terra fresca. E, duas lágrimas caem dos seus grandes olhos e rolam lentamente pelas faces pálidas.
__ Avozinha deixo-me estar aqui, junto de minha irmã, um pouco mais...

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Tenho bom coração, bom carácter, gosto da humanidade em geral, gosto de crianças... diversão: gosto de ler, de escrever, conviver, gostava de ter amigos verdadeiros, como divorciada não gostava de envelhecer sozinha, estou em casa sempre que não trabalho... e gostava de ser mais feliz... encontrar alguém para amar e fugirmos à monotonia.