terça-feira, 17 de março de 2009

* * *

Na sob-escuridão do quarto Maria Augusta olha as paredes em seu redor. Sem dormir, às voltas na cama, o seu pensamento está longe. " Mas porquê pensava ela. "Porquê havia eu de gostar dele agora, se tantas vezes tenho falado com ele? Tantas vezes! E só agora meu coração suplica a sua presença. Oh meus Deus, se eu o pudesse ver? Não! Não! Não pode ser... Maria José era minha amiga e gostava tanto dele. Morreu por ele. Não meu Deus! Não.
Maria Augusta ao contrário de Maria José era morena de grandes olhos castanhos, os cabelos eram longos e pretos como amoras, a cintura era delgada sob a anca ligeiramente saliente, a boca bem feita de lábios rosados, o nariz bem modulado rematava a elegância feminina.
Esta moça bem feita tem dezoito anos de idade e nunca amou. Mas hoje sente o seu coração preso àquele que foi o noivo da sua melhor amiga. A sua boca nunca beijada por uns lábios apaixonados, sente agora o desejo de amar e deixar-se beijar por aqueles lábios grossos do homem que pelo qual seu coração pela primeira vez palpita.
Ainda acordada Maria Augusta ouve bater as seis horas da manhã. Num impulso sai da cama e depois de se lavar, de se vestir e de tomar o pequeno-almoço vai para o emprego na esperança de voltar a ver o seu Joaquim.
Enquanto trabalha e se aproxima a hora da saída, Augusta pensa: " Ele deve de vir hoje... mas meu Deus, eu não quero mostrar que o amo! Ou será que é melhor eu sair pelo outro portão? Ah, sim é... ele não me vai ver. E se me vir? Que vou eu dizer-lhe? Ah não! Não farei isso. Vou sair pelo portão principal e pronto."
Está tão absorvida nos seus pensamentos que não ouve tocar a sereia. Quando olha em seu redor está só. Apressadamente sai da mesa de trabalho e depois de despir a bata pega na lancheira e sai pelo portão principal. Olha em todas as direcções, mas seus olhos não encontram a pessoa desejada. Triste a rapariga caminha vagarosamente em direcção a sua casa.
Uma semana depois Maria Augusta já desiludida deixou de olhar por entre as pessoas que ficavam ao portão à espera: os homens casados, das suas esposas, os rapazes solteiros, das suas namoradas e noivas e ainda os outros rapazes solteiros que não tinham namorada e iam para junto dos portões para ver as moças sair do seu emprego.
Maria Augusta tinha acabado de sair do portão e caminhava ao lado de uma sua amiga quando atrás dela ouve uma voz que a faz estremecer. " Meu Deus é ele. Ah, mas que hei-de eu fazer?"
A voz aproxima-se dela cada vez mais.
__ Augusta... espera. Eu quero falar contigo.
A rapariga olha para trás e espera pelo autor da voz que era, nem mais nem menos que Joaquim Elias. O rapaz quando chega junto dela pergunta:
__ Não me ouvias chamar?
__ Não __ diz-lhe ela com voz tremida.
__ Então __ acrescenta ele. __ Não me esperavas hoje, pois não? Pareces estar surpreendida?
__ Não. Não estou. Só que não te ouviu chamar. A amiga de Maria Augusta seguiu o caminho para a sua casa e ambos ficaram para trás. Ele pergunta à rapariga:
__ Maria Augusta tenho uma coisa importante para te dizer. Posso acompanhar-te a casa?
__ Sim. Podes. Mas o que tens para me dizer?
O rapaz olha para ela e diz-lhe:
__ Maria Augusta olha para mim. Tu vais ficar muito surpreendida com a minha mudança de sentimentos. Mas olha! Não és só tu. Eu, também fiquei surpreendido com os meus próprios sentimentos. Na semana passada quando falei contigo fiquei impressionado com a tua beleza... o que nunca antes me tinha acontecido.
A rapariga continuava a olhar nos seus olhos. Quando ele acabou, disse-lhe:
__ Joaquim estás a exagerar. A minha beleza? Oh! Mas eu não tenho beleza alguma. Sou como qualquer outra rapariga.
__ Oh meu amor para mim não! Minha querida como és simples... e como eu gosto dessa tua simplicidade. E como eu te amo! Augusta eu amo-te! Eu amo-te muito.
O rapaz sem pensar nos olhos que poderiam estar a olhar para eles abraça a rapariga pela cintura e beija-a na testa. Ela envergonhada baixa a cabeça e tenta libertar-se dos seus braços. O rapaz depois de ela se libertar dele, olha-a e pergunta:
__ Maria Augusta não dizes nada? Ou não tens nada para me dizer? Eu não quero ou melhor não te peço que me ames, mas por favor dá-me esperanças! Sim?
A rapariga olha-o e diz baixinho:
__ Eu também te amo Joaquim e também nas mesmas condições que tu, por isso acredito em ti e nos teus sentimentos. Mas há apenas um ano que a minha amiga Maria José morreu e eu não posso fazer isso. Não posso! Não posso!
__ Mas Maria Augusta foste tu que me aconselhaste a esquecê-la! Foste tu, com as tuas palavras, que me ajudaste a libertar a angústia em que vivi, este longo ano. Foste tu, Maria Augusta, o meu anjo salvador. Não me podes dizer agora que era tua amiga a mulher que eu amei. Sim. Que eu amei! Mas que já não existe e eu tenho de viver, não do passado, mas do futuro, por isso te peço não me digas para viver de recordações. Hoje que te amo.
A rapariga perante esta confissão fica a tremer, as suas mãos já nem seguram a lancheira. Dos seus olhos caem duas lágrimas. O rapaz ao olhá-la fica aflito e exclama:
__ Meu amor! Não chores... diz-me então porque choras? É assim tão terrível o que te acabo de confessar? Diz-me que não! Diz-me que não nos podemos privar de sermos felizes.
__ Sim Joaquim nós seremos felizes porque eu também te amo muito. E Maria José, lá no Céu, nos abençoará!
__ Sim, meu amor __ diz o rapaz ternamente enquanto aproxima o seu rosto do dela e lhe beija delicadamente os lábios.
Caminharam quase todo o caminho calados. Quando chegaram a casa a mãe de Maria Augusta estava preocupada com a demora da filha. Esta diz à mãe:
__ Minha mãe, nós nos encontramos e o Joaquim foi muito simpático em acompanhar-me a casa. O rapaz que a ouve diz:
__ Ah! Só fiz o meu dever de amigo. E se a Senhora me dá licença vou andando.
Ao despedir-se ele olha para ela e diz: Até amanhã, não faltarei.
Os dias posteriores àquele foram fascinantes. O rapaz a pedido da mulher que o tinha feito o mais feliz dos homens foi pedir à mãe, desta, a mão de sua filha em casamento.
A Senhora D. Enescença viúva havia já muitos anos ficou perante o pedido, como que perplexa. E quando o rapaz se afasta com a promessa de que lhe seria dada uma resposta a seu tempo pensada, a mãe diz para a filha:
__ Maria Augusta, eu fiquei de dar uma resposta ao Joaquim depois de falar contigo. Diz-me então filha. Tu gostas dele?
__ Sim minha mãe! Eu gosto dele. Gosto muito dele.
__ E que pensas fazer? Para onde pensas ir viver? Tu sabes filha? Eu estou tão habituada à tua companhia e agora tenho de ficar só __ diz a mãe comovida.
__ Mas a minha mãe não vai ficar connosco? Eu já falei a respeito com o Joaquim e tudo está resolvido entre nós. A minha mãe vai connosco e havemos de ser todos muito felizes.
__ Felizes? A felicidade é tão injusta minha filha! Não são os que merecem que são felizes. Muitas vezes são os que não merecem. Não vês a Maria José?
__ Não pense nisso, minha mãe! Mas minha mãe diga-me o que vai dizer ao Joaquim amanhã?
__ Ora! Vou dizer que sim e que tratem do casamento quando quiserem.
A rapariga ao ouvir a mãe, abraça esta com grande ternura e, diz-lhe:
__ Ainda bem minha mãe. Ainda bem que minha mãe quer que sejamos felizes. Eu amanhã digo ao Joaquim e vamos tratar dos papéis. Dentro de três meses é o casamento. Entretanto arranjaremos casa, mobílias e tudo o mais.
__ E o teu vestido de noiva? Eu quero que a minha filha vá muito bonita.
__ Vaidosa a minha mãe! __ Exclama a filha carinhosamente.
__ Então não hei-de ser vaidosa com a única filha que tenho?
Tudo quanto haviam pensado assim foi. Dentro de três meses, na igreja paroquial de Lagoa foi celebrado o casamento de Joaquim Duarte Elias com Maria Augusta da Encarnação. E desse matrimónio nasceu, ao fim de um ano, um lindo bebé que na vontade dos pais lhe foi dado o nome de Maria José da Encarnação Elias.

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Tenho bom coração, bom carácter, gosto da humanidade em geral, gosto de crianças... diversão: gosto de ler, de escrever, conviver, gostava de ter amigos verdadeiros, como divorciada não gostava de envelhecer sozinha, estou em casa sempre que não trabalho... e gostava de ser mais feliz... encontrar alguém para amar e fugirmos à monotonia.