sábado, 4 de abril de 2009


CAPÍTULO I - ISABELLA

Como o desabrochar de uma flor uma criança nasce. Os seus olhos mais parecem botões de rosa que se abrem como pétalas, mas logo se fecham. A luz do Mundo onde ela acaba de chegar é tão forte que os seus olhos não resistem à chama de um candeeiro de petróleo que estava sobre a mesa de cabeceira, junto ao berço de verga, onde a mãe a deitara.
A chuva caía lentamente como um canto de embalar. Aqui e ali frias gotas de água rolavam pelo tecto de telha-vã e iam cair no solo de altos e baixos do casebre, onde a recém-nascida dormia. O vento lá fora num leve murmúrio parecia dizer: " dorme que a vida é longo esperança e longa paciência".
Foram decorridos cinco anos. Aos caseiros mais dois filhos nasceram.

* * *

Isabella já tinha dois irmãos, mas ela tinha apenas seus irmão, não tinha bonecas, nem outros brinquedos e nem roupas novas. Seria só isso? Não. A Isabella faltava-lhe qualquer coisa, mais necessária.
Um dia, quando ela tinha seis anos, a sua avó, que vivia numa quinta um pouco afastada foi visitá-la. A pobre Senhora ao olhar a neta estremeceu e logo lhe surgiu a ideia. " Minha neta é infeliz ... vou levá-la comigo". Convidou-a. Isabella radiante pergunta:
__ Para tua casa avozinha?
__ Sim, sim __ respondeu a avó com um sorriso terno nos lábios.
A criança sentiu-se feliz com a ideia de sua avó e, disse:
__ Sim avozinha, mas vou primeiro buscar a cadeirinha que o avozinho deu à menina.
Isabella uma criança meiga e bonita, outrora triste, mas agora feliz e radiante de alegria.
Na casa de sua avó, a qual considera sua, todos os dias pela manhã vai sentar-se no alpendre, onde brinca com as bonecas de trapo que a sua avó lhe havia feito. A pequenita brinca alegremente. Tudo o que a rodeia é belo, amoroso e, assim Isabella esquece os dias sombrios que passaram pela sua vida de criança.
Ao fazer sete anos, a sua avó mandou-a para a escola. Isabella, cheia de entusiasmo gritava e saltava de um para o outro lado, enquanto dizia:
__ Que bom vou para a escola aprender a ler e a escrever!
E assim foi...

CAPÍTULO II - A INCERTEZA

Na escola Isabella fazia os seus trabalhos com todo o interesse. Os seus livros e cadernos andavam sempre limpos, era um gosto olhá-los e folhear as suas páginas. Os seus companheiros admiravam-na e alguns até tentavam imitá-la.
Maria José companheira de carteira de Isabella, era mais velha que esta, sete anos. Era loira de olhos verdes. Muito bonita por sinal, mas andava sempre só e triste. A sua tristeza não a deixava conviver, sorrir e brincar como uma criança normal.
Na hora do recreio, num dia de chuva, Maria José estava sentada num degrau da escada e, chorava.
__ Maria José porque choras? Não tens com quem brincar?
Maria José respondeu-lhe:
__ Não. Tu queres brincar comigo?
__ Sim, quero __ respondeu-lhe Isabella.
E foi assim que Isabella e Maria José se tornaram amigas. Elas brincavam, estudavam, riam às gargalhadas e contavam as suas vidas uma à outra. As suas brincadeiras eram cheias de um carinho puro, de um sentimento igualitário onde só o coração é o rei.
Um dia sentadas no recreio da escola brincavam às sete pedrinhas. De repente ficaram caladas. Olharam-se nos olhos e o silêncio continuou por algum tempo, até que foi interrompido por um dos seus colegas.
__ Isabella, Maria José! Venham: a aula já recomeçou.
Em silêncio levantaram-se... havia lágrimas nos seus olhos. Atrasadas entraram na sala de aulas. A professora perguntou-lhes:
__Meninas aonde estiveram? E qual a razão dessas caras?
Isabella não respondeu. A professora continuou:
__ Maria José, tu és capaz de responder à minha pergunta?
Maria José com os olhos postos no chão, responde:
__ Sim, Senhora Professora.
__ Então fala! Eu quero saber o que se passa __ acrescenta a professora um tanto zangada.
__ Eu e a Isabella estávamos a brincar às sete pedrinhas e não ouvimos tocar o chocalho.
__ É só isso? Então faça o favor de se sentar.
__ Sim, Senhora Professora.
Terminada a aula, as duas amigas saíram juntas. Ambas caminhavam lado a lado caladas, como se alguma coisa misteriosa tivesse acontecido. Isabella interrompeu o silêncio perguntando:
__Maria José estás tão triste esta tarde, que aconteceu?
__ Não sei __ respondeu Maria José à sua amiga. __ Só me sinto triste por minha madrinha estar doente e eu não a poder tratar por causa de vir para a escola.
__ E a tua mãe, não pode tratar da tua madrinha?
__ Eu não tenho mãe. A minha mãe morreu quando eu nasci. O meu pai casou com outra mulher e partiu...
Ambas ficaram ainda mais tristes e nos seus olhos haviam lágrimas represadas. Limparam os olhos e olharam-se em silêncio com expressões de carinho no rosto. Maria José foi quem primeiro falou:
__ E a tua mãe, também morreu?
__ Não __ respondeu Isabella. __ A minha mãe está em casa com o meu pai e com os meus irmãos. Eu estou a viver com os meus avós, mas às vezes sinto saudades de todos...
Calou-se. Ela mesma não sabia explicar. Maria José continuou:
__ Deixa lá não chores, eu sou tua amiga.
Elas eram amigas inseparáveis, mas o destino tão cruel não escolhe indivíduos nem fronteiras. E assim com o acabar do ano lectivo foi marcado o dia da separação desses dois corações que, nada de mal tinham feito ao Mundo. A não ser o de terem nascido no seio de famílias menos felizes e, que só por isso, vinham sendo marcadas para sempre na ignorância e na impossibilidade de amar com instrução os seus filhos. E dar-lhes a compreensão e o carinho de que tanto a criança precisa para ser feliz e saudável.
" Se não reprimir as crianças não precisará de educar os adultos".

sexta-feira, 3 de abril de 2009

* * *

Recomeçadas as aulas voltou o entusiasmo nas crianças da escola mista da província onde se ensinavam as quatro classes primárias. Para Isabella tudo era vácuo, destituído, mas logo a recordação de Maria José surgiu interrogando-a. "Onde estará a minha melhor amiga?
Na grande coragem de que era portadora a sua alma, no corpo frágil onde a esperança nunca adormecia, vivia agora a fúria dos dias solitários, mas mesmo assim Isabella conseguia passar todos os anos, na esperança de todos os dias ver mais além do que os seus olhos lhe mostravam. Ultrapassar a faixa branca que separa o mar do céu e o céu da terra, a grande e infinita faixa que separa as duas faces do Mundo. Mas tudo isto não passava de um sonho. Isabella não continuava os estudo. Eram grandes as dificuldades. O seu avô que tinha saído para a Vila havia dois dias, não regressara a casa. Por toda a parte se perguntava e se falava baixinho, mas ninguém respondia directamente a uma só pergunta que lhe fosse feita.
Na Quinta das Rosas vivia uma mulher e uma criança. Uma criança que sonhava um futuro, que tinha muitas e muitas perguntas a fazer, mas que, nem uma só pronunciava. O seu instinto de criança sabia a resposta. Mas sabia também que seu avô não era mau, mas, todavia estava preso numa casa escura, talvez ainda mais escura que a despensa da escola onde a professora fechava os meninos que não sabiam as lições. "Mas os seus companheiros não sabiam as lições. E seu avô, porque estaria preso numa casa escura?"_ pensava.
Isabella recordava a voz de uma mulher que estava falando do seu avô, na mercearia do Senhor Monteiro, quando ela foi fazer um recado à avó.
"Tu sabes Carolina? O José da Silva está fora de casa há dois dias, ninguém sabe dele, uns dizem que ele está preso, outros que está morto."
" Que dizes mulher? __ Pergunta Carolina. __ Sim. O José da Silva que mora na Quinta das Rosas, o avô de Isabella".
" O quê? Ah mulher! Então o homem nunca fez mal a ninguém. Não pode ser verdade __ acrescenta Carolina."
Enquanto as duas mulheres falam todas as outras pessoas se afastam. Carolina ao olhá-las não pôde calar um grito de revolta e, diz-lhes:
" Oh gente! Porque tenhais medo de ouvir falar de um homem honesto que, nunca roubou nem matou ninguém! Ou tenhais medo que a sua dor, a sua tortura ou a sua morte, um dia sejam louvadas?"
Carolina fez uma pausa e, ao olhar a porta da rua vê Isabella de boca aberta e de lágrimas nos olhos. Carolina logo compreende que as suas palavras, embora com boas intenções, fazem sofrer aquela criança que nada de concreto sabe de seu avô.

* * *

Passados seis meses numa manhã cheia de sol, Isabella salta da sua cama dá os bons dias à avó e, diz:
__ Avozinha, sabes o que pensei enquanto dormia esta noite?
A pobre Senhora fechada em luto e cheia de tristeza não pode resistir àquele contentamento da neta... e...
__ Não minha querida, o que se passa?
Isabella aconchegasse na cama da avó e, pergunta:
__ Queres que te diga avozinha?
__ Sim __ repetia a pobre Senhora.
__ Quero. Quero ir para a costura.
A Senhora D. Isabel mandou a neta para a costura. E a coragem perdida aos poucos voltava ao seu coração como por encanto. Não há dúvida que as crianças são a coisa mais maravilhosa, mais pura que existe sobre a terra. Posso até acrescentar que a profecia que diz: "As crianças são uns anjos". Não é apenas verídico. É real.

quinta-feira, 2 de abril de 2009


CAPÍTULO III - O REENCONTRO

Do outro lado da barreira Maria José passava os dias junto da madrinha a Senhora D. Leonor que continuava doente. Maria José tratava ainda dos trabalhos de casa e da criação como uma verdadeira camponesa. À noite esperava o padrinho que chegava do trabalho cansado pelo fardo dos anos que já tinha e ainda do forçado trabalho que lhe impunham no lagar.
O Senhor Lourenço ao chegar a casa sentava-se na cozinha e esperava que a afilhada lhe servisse a sopa. Maria José como habitualmente já tinha preparada uma bacia com água quente e sal diluído para o padrinho mergulhar os pés enquanto comiam. Depois do jantar reuniam-se os três no quarto de Dona Leonor onde falavam dos mais diversos assuntos e principalmente do futuro de Maria José.
__ Maria José tem pai não devemos esquecê-lo e, como tal tem de olhar pela filha quando eu fechar os olhos __ diz a Senhora D. Leonor e acrescenta. __ Ele é casado tem um lar e pode lá ter a filha. Nós temos de o procurar e dizer-lhe que ela precisa dele mais do que nunca.
O senhor Lourenço ao ouvir as palavras da esposa fica pensativo. Ele ainda não tinha pensado que se a sua companheira fechasse os olhos ficaria na solidão daquela grande quinta. Depois de perder a mulher tinha também de perder a afilhada que criou como filha. Era o grande castigo. O castigo de ser velho. Não era justo __ pensou __ mas não tinham seus pais, seus avós e ainda seus bisavós sofrido o mesmo castigo?! O castigo de ser velho não eram apenas os cabelos brancos, as costas curvadas e as pernas pesadas eram também o frio, a fome, a solidão e ainda a repugnância daqueles que eram jovens.
Maria José ao ouvir as palavras da madrinha ficou triste. Ela olhava para um e para o outro desejando falar, mas as palavras não lhe saíam da garganta. Só muito custo disse:
__ Não. Eu não quero ir para casa do meu pai e da minha madrasta.
A Senhora D. Leonor que a olhava com atenta benevolência, disse-lhe:
__ Mas minha querida, mais tarde ou mais cedo, eu parte deste Mundo, e...
O resto das palavras secam-se-lhe na garganta. Os olhos têm lágrimas represadas que o escuro do quarto só deixava ver quando a lareira se reflectia nos rostos dos três entes queridos. O momento foi de dor. Aquele corpo inerte de vida era o corpo da madrinha que foi a sua segunda mãe e, como esta partia agora para nunca mais voltar.
Ao cair da tarde depois do fúnebre Maria José acompanhada do padrinho chagaram à quinta. Ambos olham em redor e tudo lhes parece diferente. As árvores, as flores, o cão, o gato, a criação e até a casa era mais escura... tudo parecia chorar a morte da Senhora D. Leonor. O Senhor Lourenço olhou demoradamente a afilhada e, disse:
__ Maria José amanhã vou falar com o teu pai para te vir buscar. Não! Não digas nada. Apenas obedece ao último pedido da tua madrinha.
Nos grandes olhos verdes haviam lágrimas de desespero, mas logo a coragem as secou.
__ E tu padrinho? __ Perguntou a custo.
__ Eu fico aqui na quinta __ disse o Senhor Lourenço. __ Podes cá vir quando quiseres.
Ao romper da aurora no dia seguinte o Senhor Lourenço saiu para procurar o pai da afilhada. João Reis era um homem duro com pouca sensibilidade, mas cumpridor dos seus deveres e sobretudo muito orgulhoso. Logo que foi posto ao corrente do sucedido foi buscar a filha para casa. Entregou-a à mulher que a recebeu de braços abertos e logo se tornaram mãe e filha.

* * *

Maria José conheceu a sua irmã Teresa e o seu irmão João, mas a madrasta disse-lhe que ela tinha ainda outra irmã que, não estava em casa. À hora do jantar quando todos estavam à mesa Maria José perguntou:
__ Mãe e a minha irmã não vem jantar?
__ Não __ respondeu a madrasta. __ A tua irmã não vive aqui em casa, mas amanhã vamos as duas à Quinta das Rosas para a conheceres, e vais conhecer também a minha mãe que deves tratar por avó.
No dia seguinte Maria José levantou-se cedo. Vestiu o seu melhor vestido. Penteou o seu longo cabelo cor de ouro. Depois de pronta sentou-se na cama à espera que a mãe lhe fosse dar o laço no cabelo.
__ Bom dia Maria José __ cumprimenta a mãe.
__ Bom dia mãe! Eu estou à vossa espera para dar um laço no meu cabelo.
__ Sim. Então levanta-te para eu atar o teu cabelo e dar o laço na fita. Está lindo...
__ Mãe eu fico assim bonita para ir ver a minha irmã?
__ Sim. Tu estás linda, mas anda comer para chegarmos cedo à Quinta das Rosas.
Durante o percurso mãe e filha não trocaram uma palavra. Ambas pareciam estar desejosas por chegar ao destino. Já na quinta Maria José pergunta:
__ Mãe, como é a minha irmã?
A pergunta ficou sem resposta. O cão ao sentir as recém-chegadas corre aos latidos e aparece logo a Senhora D. Isabel. Depois das apresentações a senhora D. Judite acrescenta:
__ Mãe a Maria José quer conhecer a irmã, ela está em casa?
__ Não. Não está. Ela foi à venda do Senhor Monteiro fazer um recado, mas entrem que ela não demora. Enquanto esperam a Senhora D. Judite e a mãe, a senhora D. Isabel falam dos mais diversos assuntos. Maria José olhava-as impaciente pela demora da irmã.
Ao latido do cão Maria José estremece. Ela sente vontade de se levantar, mas tudo é tão forte e confuso que não consegue. A recém-chegada entra e...
__ Maria José és tu? Que fazes aqui em minha casa?
__ Eu... eu vim visitar-te __ respondeu Maria José a custo ao mesmo tempo que olha a madrasta. Esta sem saber o que se passa fica confusa e pergunta:
__ Isabella já conhecias a Maria José?
__ Sim minha mãe. A Maria José era minha companheira de carteira na escola e a minha melhor amiga.
Abraçam-se.
A Senhora D. Judite e a Senhora D. Isabel ficam olhando as pequenas e naquela confusão não sabem que dizer.
As duas grandes amigas estavam finalmente juntas. Como é grande o destino, que ao contrário da vida é eterno, mas todavia mau e bom como esta.
__ Avozinha posso mostrar as minhas bonecas à minha amiga?
__ Podes sim querida __ respondeu ternamente a avó.
As pequenas afastam-se para o alpendre da casa. As duas mulheres ficam olhando aquelas duas irmãs, que sendo filhas do mesmo pai tinham rostos tão diferentes, mas eram tão iguais o seu carácter.
As duas irmãs sentadas no alpendre brincavam com as bonecas e estavam tão felizes que não mais lembraram o motivo daquele encontro. Quando a avó as chamou ficaram ambas em sobressalto. Entre olharam-se e logo surgiu a pergunta:
__ Maria José como foi que encontraste a minha casa? Perguntaste a alguém conhecido?
__ Não __ respondeu Maria José.
__ Então conta cá, como foi...
Maria José olhava a sua grande amiga e queria contar-lhe como tudo aconteceu, mas nem tinha coragem. Para ela tudo aquilo lhe parecia um pesadelo e uma grande coincidência. A avó voltou a chamar e ambas correram ao chamamento da Senhora D. Isabel que as esperava.
__ Minhas queridas hoje vão passar o dia juntas para poderem brincar com as bonecas e outras brincadeiras ao vosso gosto. Agora vamos almoçar.
Isabella ficou muito contente, mas continuava a não compreender. Depois de se sentarem à mesa, pergunta:
__ Avozinha, a Maria José veio sozinha. Como vai a madrinha dela saber que fica cá?
A mulher perante a interrogação da neta compreende que ela ainda não sabe que a Maria José é sua irmã. A Senhora D. Isabel enche-se de coragem para lhe dar a noticia.
__ Isabella a madrinha de Maria José morreu e ela vai ficar connosco, isto é, em casa dos teus pais e sabes porquê? Porque a Maria José é tua irmã.
A criança ao ouvir aquela confissão fica pasmada. Olha a avó ao mesmo tempo olha a amiga e pergunta:
__ É verdade? É verdade avozinha? Maria José é verdade? Tu sabias?
A irmã a muito custo responde:
__Sim. Sabia...
Abraçaram-se. Os seus olhos tinham lágrimas. Lágrimas que não eram agora de tristeza, mas sim de reencontro que jamais tinham julgado possível.

quarta-feira, 1 de abril de 2009


CAPÌTULO IV - O REGREDDO

No mês de Maio no grande jardim da Quinta das Rosas tudo era belo. No tanque de água fria, muito azul pela sombra do limo havia peixes de várias cores. A Senhora D. Isabel contemplava com saudade toda aquela paisagem que outrora as suas mãos ajudavam a embelezar. No seu espírito renasceu subitamente a vontade de viver, de tratar das flores do seu jardim desprezado há anos.
Na manhã seguinte acompanhada da neta a Senhora D. Isabel decidiu limpar o jardim das ervas ruins. Planta aqui e além pés de malmequeres, de hortenses, de roseiras e de orquídeas. Desbasta ainda dos canteiros a grama que parece não ceder, às outras plantas, a liberdade de crescimento.
Depois de um dia de trabalho, no contacto com a Natureza, ambas se sentiam felizes e ao mesmo tempo fatigadas. Acabadas as tarefas daquele dia foram para a cama logo após o jantar. Pelas altas horas da noite o cão lá longe ladra e corre depois para a porta como que a anunciar a chegada de alguém que, se aproximava da quinta. A mulher acorda em grande sobressalto, desce da cama e caminha de pé ante pé até à porta.
Ela ouve passos. Trémula reza uma oração. Ao mesmo tempo o cão pára de ladrar. A mulher ouve uma voz que parece reconhecer. Da garganta sai um grito, um nome mal pronunciado:
__ "José".
A mulher mal pedia manter-se de pé, mas logo reúne todas as suas forças e corre ao quarto da neta.
__ Isabella acorda, o avozinho está a chegar.
A criança meio adormecida e sem compreender a avó, pergunta:
__ O avozinho está a chegar de onde?
O recém-chegado bate à porta enquanto pronuncia o nome do cão.
__ Leão sou eu, o teu dono.
Este desconfiado volta a ladrar.
Do outro lado da porta estavam avó e neta como que pregadas ao chão. Elas olhavam uma para a outra sem nada pronunciarem. À segunda pancada na porta Isabella puxa do ferrolho desta e abre-a. O homem entra. Abraça as duas e diz:
__ Não tenham medo sou eu, mas por favor não façam perguntas e deixem de me olhar assim. Preciso de água quente para lavar os pés e dormir para descansar o corpo, que há cinco anos é torturado.
A Senhora D. Isabel deixa cair dos olhos duas lágrimas que rolam pelas faces enrugadas. Sem perguntas como lhe pedia o marido vai para a cozinha aquecer a água. O homem descalça as botas quase sem solas e sem biqueira que deixam transparecer os dedos isentos de unhas. O rosto coberto por grande barba branca. As roupas sujas e rotas deixavam ver todo o martírio do seu possuidor. Isabella olhava o seu avô com grande espanto. Receosa pergunta:
__ Avozinho de onde vens com essa roupa tão rota e suja?
O homem olha a neta e não responde. Num impulso puxa-a para si e diz-lhe:
__ Netinha o avozinho vem de muito longe e está muito cansado, por isso vou descansar e amanhã falaremos.
A criança fica calada, mas não deixa de olhar o avô que não parece o seu avô, mas sim um velho mendigo, daquela maneira vestido. A mulher chega com a água quente numa bacia e com uma toalha turca. Ao olhar os pés do marido reclama assustada:
__ Malvados arrancaram-te as unhas? E que mais te fizeram? Olha? Olha como tu tens os dedos em ferida! E até cheiram mal. Mas como pudeste andar até aqui? Quem foi que te trouxe?
A mulher enquanto cuidadosamente lavava os pés do marido que todos julgavam morto fazia perguntas. Perguntas umas atrás das outras, mas as suas perguntas não tinham resposta ou melhor o homem não queria recordar. Não desistira do seu idealismo mesmo depois das grandes torturas porque passou naqueles anos de exílio. Estas não o venceram, pelo contrário avivaram mais o seu desejo de libertar o povo da fome, do trabalho intenso, dos ordenados de miséria. Era urgente que os homens torturados não se deixassem abater. Eles tinham de ser fortes para suportar não só os exploradores como os explorados. Estes últimos que pela ignorância e medo defendiam não os seus interesses, mas o desejo dos patrões que os exploravam. A mulher como o marido não lhe respondeu ficou calada e logo compreendeu que ele precisava de descansar.
No outro dia já o sol ia alto quando José da Silva acordou do sono repousante, de que havia anos não conhecia. Junto dele estavam a mulher e a neta. Ambas caladas olhavam-no. Até que ele diz:
__ Bom dia minhas queridas.
__ Bom dia disseram as duas ao mesmo tempo. Podemos conversar? __ Perguntou a mulher.
__ Que queres que te diga? __ Pergunta ele olhando a neta.
A Senhora D. Isabel manda a neta para a cozinha preparar o café da manhã. Depois desta sair do quarto diz para o marido:
__ José há cinco anos que saíste para a vila e só agora voltas. Eu sinto que tenho o direito de saber o que aconteceu.
O homem perante a insistência da mulher começa a contar o que se passou.
__ Dois homens que não conheci na altura pediram, com uma arma na mão, que os acompanhasse. Eu tentei resistir mas sem resultado. Acompanhei-os. Não sei para onde me levaram, só sei que fui transferido ao fim de algum tempo. Eles vendaram-me os olhos, mas compreendi que ia para Lisboa. Quando lá cheguei tiraram-me a venda dos olhos. Chamaram-me porco comunista e foi ai que soube que estava preso como comunista.
A mulher interrompeu. Não podia ouvir aquelas palavras. E tu o que lhes disseste, perguntou:
__ Nada...
__ Oh homem porque te metes tu nisso? Tu sozinho não podes mudar o Mundo!
__ Está bem mulher dizes bem. Sozinho não posso mudar o Mundo, mas todos juntos de mãos dadas podemos vencer...
__ Mas vencer o quê homem?
__ Vencer aqueles que não querem trabalhar. Aqueles que querem que nós povo trabalhemos de sol a sol e que o dinheiro que nos pagam mal chega para comer pão seco. E ainda aqueles que levam os nossos filhos para a guerra e os obrigam, em nome da Pátria a matar homens, mulheres e crianças que também têm fome e que apenas lutam pelo direito à vida, pela liberdade. Mas mulher queres ouvir o resto?
__ Oh homem! Eu só quero saber como vieste para casa __ disse a mulher impaciente.
__ Depois de tanto interrogatório e tantas torturas mandaram-me para casa, neste estado. Sem roupas, sem dinheiro e sem poder andar. Mas aos poucos cheguei a casa. Pelo caminho pedi esmola e abrigo. Apenas foram quinze dias para chegar ao pé de ti, mulher.
Os olhos encheram-se de lágrimas. A garganta deu um nó e o homem inerte cai na almofada. Mas ele desta vez tem a mulher para cuidar dele e não o médico que lhe dava drogas.

CAPÍTULO V - O PRESENTE DE ANIVERSÁRIO

Naquele ano a indústria conserveira no fim do defeso abriu inscrições para aprendizes. A Senhora D. Inescença logo que soube inscreveu a filha. Esta que era amiga de Maria José correu a dizer-lhe.
__ Maria José, sabes? A minha mãe inscreveu-me na fábrica onde ela trabalha. Tu também queres ir trabalhar comigo?
Maria José e sua amiga Maria Augusta logo começaram a fazer projectos. As duas pediram à Senhora D. Judite que falasse ao pai de Maria José, nas inscrições. Este deu o seu consentimento embora de contra vontade.
Ao fim de poucos dias podíamos vê-las de avental de grandes folhos, lenço branco na cabeça e nos pés graciosas tamancas.
Todos os dias da semana e mesmo alguns domingos Maria José trabalhava na indústria e por essa razão não ajudava a madrasta na lida da casa.
No fim da temporada, com a chegada do defeso, a fábrica parou. Maria José que não via a sua irmã Isabella havia muito tempo foi à Quinta das Rosas visitá-la. Isabella ao ver chegar a irmã ficou radiante e alegremente exclamou:
__ Olá mana! Estou muito contente em te ver. Hoje não foste trabalhar para a fábrica?
__ Não. Hoje não há trabalho __ respondeu Maria José. __ E tu também não vais hoje para a costura?
__ Não __ responde Isabella.
__ Então podemos conversar. Eu tenho novidades para ti __ diz Maria José.
As duas irmãs sentaram-se no alpendre da casa. Maria José olha em redor como a certificar-se que estão sós. Antes de dar a novidade à irmã pergunta:
__ Isabella conheces o primo da tua mestra? O Joaquim Elias.
Isabella fica pensativa: olha a irmã e responde:
__ Sim. Conheço, porque me perguntas?
__ Ora. Porque ele disse-me que gostava de mim e eu conheço-o mal. Gostava que me desses a tua opinião. Mas não quero que digas a ninguém. Está bem?
__ Não. Não digo a ninguém podes ficar descansada, mas conta-me tudo.
Maria José em poucas palavras conta à irmã o que aconteceu. Esta ainda muito nova, mas compreensiva promete mais uma vez guardar segredo.
Estavam tão entretidas com a conversa que quando olharam o relógio eram já cinco horas da tarde. Maria José receosa que o pai chegasse a casa antes dela despediu-se apressadamente da irmã dando-lhe o recado da mãe que, com a conversa, havia esquecido.
__ Isabella a nossa mãe manda pedir que vás lá a casa amanhã.
__ Está bem. Tu diz à mãe que irei __ respondeu Isabella apressadamente.
Quando fica só Isabella pergunta a si mesma o que quererá sua mãe, para a mandar chamar, mesmo no dia do seu aniversário?
No dia seguinte foi visitar a mãe. E o que foi que seus olhos viram? Um lindo bebé. E o mais emocionante é que esse bebé era seu irmão que, nasceu mesmo no dia do seu aniversário. Melhor no dia que ela fez 11 anos. E como ele era pequenino e tão querido. Isabella já não o queria deixar. Queria levá-lo para sua casa. Pois não tinha sido um presente de aniversário que Deus lhe havia mandado? Sim era um presente! __ pensou Isabella, mas não o podia levar, porque ele era tão pequenino e tinha de ficar junto de sua mãe.
A Senhora D. Judite ao ver a filha tão entusiasmada com o bebé pergunta:
__ Isabella gostas do teu irmãozinho?
Isabella olha a mãe e muito satisfeita responde:
__ Sim mãe é lindo o meu irmãozinho. Como se vai chamar?
A mãe pensa um pouco e responde-lhe:
__ Ainda não te sei dizer, filha, mas assim que escolhermos o nome para ele, eu digo-te. Está bem?
Isabella não deixa de olhar o bebé e pede à mãe para o deixar pegar ao colo. A mãe pega no bebé e passa-o para o colo de Isabella que o pega com todo o carinho.

* * *

Numa linda e fresca manhã de domingo Maria José saiu da cama ainda o sol não havia beijado o verdejante relvado que o orvalho da noite prateara. Espontaneamente nasce no seu coração o desejo de ir ao encontro da Natureza e logo exclama de si para si: "Oh mãezinha! Como é linda a manhã cheia de orvalho! Como é lindo o nascer e o pôr-do-sol! Como é linda e Grande a Natureza. Como é linda a vida!
O pai interrompe-a nos seus pensamentos:
__ Em que pensas Maria José __ pergunta o pai, a meia voz, ao mesmo tempo que lhe diz. __ Preciso que vás à mercearia do Senhor Monteiro fazer um recado.
Maria José diz ao pai que vai tratar do banho do bebé e seguidamente vai fazer o recado. A este não agrada muito a ideia, mas concorda. Maria José depois de dar banho ao irmão veste o seu melhor vestido de domingo, penteia o seu cabelo loiro e sai de casa para fazer o recado ao pai. Pelo caminho saiu-lhe à frente um rapaz alto, moreno que ela logo reconheceu. Este logo lhe tira conversa.
__ Olá Maria José! Estás hoje muito bonita. Então, onde vais?
Maria José interrompe-o dizendo:
__ Hoje está um lindo dia. Não acha?
__ Sim está. E onde vais? Posso acompanhar-te __ pergunta o rapaz um pouco trémulo.
Maria José não responde e de olhos no chão caminha apressadamente. Joaquim Elias que fica para trás olha-a com descontentamento, mas logo adianta o passo e pega numa das mãos da jovem e diz:
__ Maria José porque caminhas tão apressadamente e não respondeste à minha pergunta?
O rapaz fez uma pausa e mesmo sem querer aperta os dedos da jovem entre os seus. Os olhos de ambos cruzam-se, os seus corações batem em uníssono: é um amor que nasce. Ambos ficam calados e os seus lábios trémulos imprimem um longo beijo. Quando se separam Maria José parece um passarinho assustado.
__ Joaquim alguém pode ver-nos. Oh! Se meu pai souber...
__ Não tenhas medo. Quem nos pode ver? Aqui não há ninguém. E de mais eu falarei com o teu pai.
__ Oh não, Joaquim!
__ Porque não? Não nos amamos nós por acaso?
__ Sim, mas...
__ Oh minha querida __ exclama o rapaz apertando-a contra si. __ Então sempre é verdade que é correspondido o grande amor que tenho por ti?
A rapariga trémula e envergonhada da sua confissão baixa a cabeça e cai nos braços do seu amado que a aperta com ternura. Depois de um segundo beijo separam-se com a promessa de um reencontro.

Acerca de mim

A minha foto
Tenho bom coração, bom carácter, gosto da humanidade em geral, gosto de crianças... diversão: gosto de ler, de escrever, conviver, gostava de ter amigos verdadeiros, como divorciada não gostava de envelhecer sozinha, estou em casa sempre que não trabalho... e gostava de ser mais feliz... encontrar alguém para amar e fugirmos à monotonia.