segunda-feira, 30 de março de 2009

* * *

Na Quinta das Rosas todos os habitantes ficaram de vigília naquele dia, ao cair da tarde. E quando viram passar João Reis, para casa de Joaquim Elias, de grande varapau nas mãos ficaram trémulos e receosos por aquilo que pudesse acontecer à Maria José. Esta, que estava na casa do noivo contava à mãe deste o que se estava a passar.
João Reis depois de ouvir a voz da filha através da janela, decide bater à porta. Quando o dono da casa a vem abrir, este diz:
__ A minha filha está cá. Vá dizer-lhe que venha comigo para casa.
O homem perante os maus modos do recém-chegado manda este aguardar e vai dizer à Maria José que o pai a veio buscar. A rapariga para não pôr em guerra com o pai, os futuros sogros levanta-se e vai pedir ao pai que espero um pouco para ela se despedir dos pais do namorado. Quando Maria José vem para sair, o pai pergunta-lhe:
__ Onde estão as tuas coisas? Eu te digo! Vai buscá-las. Malvada não tens vergonha? Sua porca desavergonhada.
João Reis fora de si desata aos pontapés com a filha, gritando cada vez mais, enquanto lhe chama tudo o que lhe vem à boca. A rapariga amedrontada e cheia de vergonha volta para dentro. Pega num dos sacos da loiça e outro das roupas. Quando volta a sair diz:
__ Meu pai! Estão aqui as minhas coisas.
__ Não tens vergonha? Porca. Desavergonhada __ grita este ao mesmo tempo que lhe dá um forte pontapé nas pernas. As loiças caem no chão e aí se vêem partidos: pratos, copos, chávenas, travessa, terrinas e tantas outras peças...
Maria José caminhando para casa a pé, à frente do pai, apenas gemia. Em todo o percurso que foi cerca de cinco quilómetros ela foi espancada pela pai que tudo tinha de carrasco. Quando chegaram a casa a rapariga mal podia manter-se de pé. O pai continuava a gritar e a bater-lhe. Agora com uma rédea dos cavalos que ele sempre tinha atrás da porta da cavalariça.
A Senhora D. Judite na cama ainda doente, da grande recaída do nascimento do bebé tremia de medo e de febre, como quando na tarde de vinte e oito de Fevereiro de mil novecentos e cinquenta e quatro, o seu corpo tombava em cada passo com o peso da neve que caia sobre ele. Agora, tal como nesse dia, precisava de forças: não para chegar a casa com vida para ver o seu bebé, ainda de dias, mas sim para defender aquela que sempre tratou como filha e que agora a via mal tratada pelo pai. Perante este pensamento reúne todas as suas forças e exclama:
__ Oh homem! Não batas mais na tua filha. Maria José vem cá para o pé de mim...
__ Vai sim. Vai para ao pé da tua madrasta desavergonhada e pede-lhe desculpas por não respeitares os seus conselhos.
A rapariga vai para ao pé daquela a quem sempre chamou de mãe. Não chorava. Pois já nem lágrimas tinha para chorar. Apenas tremia de medo e de vergonha. E ali mesmo, no quarto da madrasta, aos pés da cama passou as últimas horas da noite.

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Tenho bom coração, bom carácter, gosto da humanidade em geral, gosto de crianças... diversão: gosto de ler, de escrever, conviver, gostava de ter amigos verdadeiros, como divorciada não gostava de envelhecer sozinha, estou em casa sempre que não trabalho... e gostava de ser mais feliz... encontrar alguém para amar e fugirmos à monotonia.