sexta-feira, 20 de março de 2009

CAPÍTULO XIV - A PARTIDA

Depois de todo o esforço, José da Silva vê com tristeza a sua filha voltar para o marido. Mas estava seguro de que a amparara quando ela mais precisou dele. Ver partir a filha estava resignado, mas a neta! Não. Não consentiria que o pai a fosse buscar. Essa tinha ele criado desde os seus seis anos... e o pai não a levaria dali, sem que primeiro tivesse que passar por cima do seu cadáver. O homem estava tão absorvido no seu pensamento que não deu por chegar, junto dele, a sua mulher, a Senhora D. Isabel que lhe pergunta:
__ José que estavas tu a pensar? Ultimamente andas pelos cantos da casa a falar sozinho, o que se passa contigo?
__ Ora! Nada, mulher. Ando apenas preocupado por causa de Isabella. O pai dela quer que ela vá para casa dele e eu, não quero que ela vá. E tenho receio que ele faça alguma maldade contra a Judite ou contra a Isabella. Aquele homem é capaz de tudo!
__ Não é melhor tu falares com ela, perguntares-lhe a sua opinião?
__ Talvez. Aonde está ela?
__ Foi para a costura, mas não deve demorar. Ela vem almoçar a casa...
__ Então quando ela chegar vou falar com ela.
Quando Isabella chegou a casa para almoçar, o almoço já estava na mesa. E quando os três estou sentados à mesa, o avô pergunta à neta:
__ Isabella o teu pai quer que tu vás para casa dele. Qual é a tua opinião?
__ A minha opinião, avozinho? A minha opinião é ficar para sempre na vossa companhia.
__ Mas minha querida, o teu pai vai embora daqui e quer que vás com ele, com a tua mãe e com os teus irmãos __ acrescenta o homem muito sério.
__ Está bem avozinho, o meu pai pode querer que eu vá com eles, mas eu não quero ir. E não vou, avozinho. Não vou...
Ao dizer as últimas palavras, Isabella corre para o seu quarto. De bruços encima da cama chora convulsivamente. A avó momentos depois vai ao quarto e ao vê-la chorar abraçada ao travesseiro aproxima-se do leito. E sentando-se junto da neta diz-lhe carinhosamente ao ouvido:
__ Não chores! Tu não irás...
__ Não vou avozinha? Então? Que bom! Ah! Mas se o meu pai me vier buscar, o que lhe vai a avozinha dizer? __ Pergunta Isabella impaciente.
__ Que vou dizer? Vou dizer-lhe que tu não vais, porque eu não quero __ diz-lhe a avó e acrescenta sorrindo. __ Vá, não chores. Tudo se vai arranjar.
Isabella abraça a avó muito comovida e ao mesmo tempo agradecida. Ela nem queria pensar no desgosto que iria sofrer ao deixar seus avós e ainda o desgosto que lhes iria causar a sua partida.
Isabella depois de se acalmar voltou para a costura. A pequena distância que separava a sua modista da "Quinta das Rosas" era mais ou menos de quinhentos metros o que para Isabella não era nada, até porque ela estava habituada a andar aquele caminho quatro vezes ao dia. Só que naquele dia o caminho parecia nunca mais ter fim. A cada passo que dava olhava para trás. Parecia-lhe ouvir passos. Parava. Em seguida corria. E foi assim que chegou a casa da modista. Esta que não era habitual ver chegar Isabella naquele estado de cansaço, pergunta:
__ Rapariga que foi isso? Parece que viste um papão!
__ Não ! Não vi o papão. Só que corri todo o caminho.
__ Correste todo o caminho? Mas porquê? Fala rapariga, porquê?
Isabella em poucas palavras explica à mestra e às companheiras a razão de chegar cansada daquela maneira.
__ Sim, corri todo o caminho porque me pareceu ouvir os passos do meu pai atrás de mim. Eu não quero ir para casa dele __ diz a rapariga levantando a voz. __ Não quero __ acrescenta aterrorizada.
__ Mas se não queres, não vais __ diz-lhe a mestra.
__ Não é assim tão simples __ diz Isabella. __ Mas vamos trabalhar...
Isabella sentou-se na cadeira junto à máquina de costura onde era seu lugar habitual. Trabalhava nos acabamento do vestido de uma cliente especial como a mestra chamava e costumava dizer: " Os acabamentos meninas têm de ser bem feitos. São os acabamentos que revelam às nossas clientes, aquilo que sabemos do nosso trabalho". Isabella sentada recordava as palavras da mestra. E recordava também as do seu avó. "Mas minha querida, o teu pai vai embora aqui e quer que tu vais com ele...
Isabella era uma criança, ainda não tinha doze anos feitos. Era forte. Talvez forte demais para a sua idade, mas agora estava confusa olhava o trabalho que acabou de fazer e não podia mais. O melhor era ir para casa __ pensou __ ali sentada não suportava tinha de fazer qualquer coisa, nem que fosse dizer ao pai que só iria para casa, se ele fizesse o mesmo a ela que fez à irmã.
Nesse momento ouve-se um estrondo. Inerte o corpo de Isabella cai para a frente. As colegas de trabalho olham-na, perplexas não sabem que fazer. A mestra, que estava na outra divisão da casa ao ouvir os murmúrios prolongados das aprendizes, corre. Ao ver o corpo desmaiado de Isabella pede socorro ao irmão. Este, atrela um macho à carroça e transporta Isabella a casa.

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Tenho bom coração, bom carácter, gosto da humanidade em geral, gosto de crianças... diversão: gosto de ler, de escrever, conviver, gostava de ter amigos verdadeiros, como divorciada não gostava de envelhecer sozinha, estou em casa sempre que não trabalho... e gostava de ser mais feliz... encontrar alguém para amar e fugirmos à monotonia.