terça-feira, 17 de março de 2009

CAPÍTULO XVI - O SONHO

O correio de quinta-feira chega à mercearia do senhor Monteiro por volta das duas horas da tarde. O carteiro entrega ao balcão da mercearia toda a correspondência da zona postal. Nessa correspondência há uma carta endereçada a José da Silva, a mesma é entregue a Isabella quando esta vai à mercearia fazer um recado à avó.
__ Avozinha está aqui uma carta para o avozinho. A avozinha quer que a vá levar ao campo, para o avozinha a ler?
__ Não. Não vais ao campo. Tu não sabes aonde o avozinho está a trabalhar.
__ Sei. O avozinho está a limpar as amendoeiras novas junto ao casebre da poça.
__ Sim. Mas não vais. A carta pode ficar ai em cima da mesa. O teu avô a lê quando chegar.
Quando o homem chega a casa, depois de um dia árduo de trabalho, a mulher diz-lhe:
__ José tens aí em cima da mesa, uma carta.
__ Uma carta? __ Pergunta o homem receoso.
__ Sim, uma carta.
__ Está bem __ diz o homem e acrescenta. __ Eu leio-a depois de cear.
Depois de terminada a ceia a senhora D. Isabel arruma a cozinha com a ajuda da neta. José da Silva pega na carta que continua em cima da mesa da sala e vai com ela para o quarto. Senta-se na cama. Abre o envelope e tira de dentro deste, uma folha de papel escrita à máquina o que não era habitual. Em seguida põe os óculos para ver melhor. E quando acaba de ler a carta o suor escorre-lhe pela testa. Mais uma vez volta a ler a carta e deixa escapar num leve murmúrio: " __ Oh meu Deus! Que hei-de eu fazer? Não posso pagar os juros, este ano, quanto mais a hipoteca! Estou arruinado! Só há uma esperança: a amêndoa e o trigo. E tenho só oito meses para pagar a hipoteca! Não vai ser possível... não vai."__ O homem olha para as quatro paredes do quarto enquanto amachuca nas mãos, o papel. E recorda os dias bons e os dias maus que tem vivido entre aquelas quatro paredes e ainda os anos que não viveu nelas. __ "Esses... esses cinco anos de exílio foram a causa de tantos sofrimentos. E hoje? Hoje é ainda a causa desta carta, a causa da doença que desde então tenho sofrido, a causa da hipoteca que fui obrigado a fazer para voltar a viver, a cultivar, a tratar das terras. Foram cinco anos tão longos e tão amargos que o seu fel chegou de sobra para envenenar toda a minha vida. E não só, a vida dos que me rodeiam e, tal como eu, nada fizeram de mal a esses senhores donos do Mundo." __ O homem depois de ler a carta recorda o seu sofrimento. E tomado pelo desespero caminha cambaleante em direcção às cavalariças. A mulher que o vê corre para ele assustada e exclama:
__ José que tens? Foi a carta que te deixou nesse estado?
__ Não mulher. Eu não tenho nada ou melhor nada de grave. É apenas cansaço. Sabes? Trabalhei todo o dia __ acrescenta José da Silva tentando disfarçar.
Oito meses depois José da Silva é obrigado a entregar aos credores as suas terras e até a própria casa onde nasceu. E onde já haviam nascido seus pais e seus avós. Vai então viver para uma pequena casa desabitada há anos, a qual pertencia à mulher: a senhora D. Isabel que lhe haviam deixado os pais.
Já cansado e doente pelo desgosto e maus tratos, José da Silva perde a coragem, a alegria e o sonho de ver livre Portugal. Cada dia que passa os seus cabelos se tornam mais brancos, as suas pernas mais fracas, as suas esperanças mais desvanecidas e a sua pobreza mais acentuada. O homem pensa pela primeira vez na vida, que já não vale apenas lutar. Mas ao pensar na neta sente desejo de lhe dizer: __ "Isabella, luta. Luta por uma vida melhor. Se chegares à minha idade e tudo estiver na mesma, não percas a coragem. E não esqueças. Passa aos teus filhos e aos teus netos, este meu sonho: ver Portugal livre de ditaduras oprimistas, capitalistas e outras."
A febre toma-lhe o corpo e o homem cai no leito. Isabella que está ajoelhada junto ao leito do seu avô cai sobre ele em sumidos gritos convulsivos. Quando ambos parecem ter adormecido ouve-se no silêncio um balbuciar sumidamente enrouquecido: " Coragem. Luta, luta... lu...ta... é possível. Os homens podem ser todos iguais... podem. Lutar... todos...iguais... sonho... coragem !"
__ Sim, avozinho! Lutarei pelo seu sonho, mesmo que para isso tenha de sofrer o dobro do seu sofrimento __ diz Isabella carinhosamente.
O homem olha a neta agradecido ao mesmo tempo que fecha os olhos e a cabeça lhe cai inerte.
D. Isabel chama com urgência o médico. Este depois de examinar o doente, exclama:
__ Senhora D. Isabel seu marido está muito doente. Ele precisa de um grande tratamento e muito repouso. E visto eu não poder cá vir, todos os dias, quero que ele vá para o hospital. Só assim o poderei tratar como o estado dele exige.
__ É grave o que tem o meu marido, Senhor Doutor?
__ Sim é grave. Muito grave!
__ Senhor Doutor, diga-me: o meu marido vai ficar bom?
__ Não sei. Se ele reagir ao tratamento é possível.
__ Obrigada, Senhor Doutor...

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Tenho bom coração, bom carácter, gosto da humanidade em geral, gosto de crianças... diversão: gosto de ler, de escrever, conviver, gostava de ter amigos verdadeiros, como divorciada não gostava de envelhecer sozinha, estou em casa sempre que não trabalho... e gostava de ser mais feliz... encontrar alguém para amar e fugirmos à monotonia.