sábado, 21 de março de 2009

CAPÍTULO XII - A INJUSTIÇA

Na Quinta das Rosas todos os dias à mesma hora José da Silva atrelava no carrocim um dos cavalos para transportar à vila a sua filha Judite que, continuava enferma e, a precisar de receber injecções todos os dias.
José da Silva enquanto deixa a filha na sala de espera, para a injecção vai falar ao Dr. Juiz Antunes sobre a morte da neta.
__ Senhor Doutor Juiz, como sabe todos os dias faço esta viagem com minha filha. Os meus deveres de pai têm aumentado. Só tenho pena que os outros pais, assim, não o sejam.
__ É verdade José, o Senhor é um pai exemplar. Mas diga-me o que o traz ao meu escritório?
__ É verdade, Senhor Dr. Juiz, com toda esta conversa desviei-me do assunto que me traz cá __ o homem respira fundo, pois não é muito agradável falar do assunto. Por fim diz. __ Senhor Doutor Juiz, como sabe a minha neta foi espancada pelo pai. E foram essas pancadas e insultos que a levaram a suicidar-se. Senhor Doutor eu também sou pai e, como tal sou contra a pais oprimistas. A meu ver as crianças não se oprimem. Educam-se. Às crianças não se diz: "Não faças isto! Não faças aquilo! Às crianças devemos mostrar-lhes sim, mas só, o que elas devem fazer. E com o crescimento elas compreenderão o que não devem fazer. E nós os pais e educadores estamos cá para lhes ensinar quando necessário. Com carinho, com compreensão e não à pancada". As crianças devem ser livres para crescerem à vontade __ acrescenta o homem um tanto altivo, mas todavia não perde a calma e volta ao assunto. __ Mas Senhor Doutor Juiz voltei de novo a desviar o assunto. Eu queria que o meu genro pagasse na cadeia, aquilo que fez à filha.
__ Está bem José, mas o amigo tem, por acaso, testemunhas como foi ele que a matou?
__ Não, Senhor Doutor Juiz! Eu não tenho testemunhas de ele a ter morto! Pois que a corda ao pescoço não foi ele, quem o pôs. Mas Senhor Doutor Juiz, vossa Ex. sabe que ele deixou o corpo da rapariga negro à pancada. Se a filha não se tivesse enforcado teria morrido dos maus tratos que o pai lhe deu.
__ Está bem José. Eu vou ver o que posso fazer para o castigar, mas não lhe garanto nada.
__ Não é junto Senhor Doutor Juiz! Eu, que nunca fiz mal ninguém, prenderam-me e torturaram-me durante cinco anos, sem eu, ainda hoje saber porquê. E esse homem... Grande injustiça, Senhor Doutor Juiz __ as últimas palavras saíram-lhe tremidas da garganta.
O homem depois de se despedir do Juiz da comarca saiu com a incerta promessa do mesmo. E foi buscar a filha que já o esperava.
Em braços, como uma criança de tenra idade, a Senhora D. Judite é transportada pelo pai, que com todo o cuidado e todo o carinho a deita na carrocim sob uma almofada de lã de ovelha, feita propositadamente para aquele fim. Caminharam de volta à Quinta. Entre pai e filha nem uma só palavra se ouviu. Só quando chegados à Quinta a Senhora D. Judite pergunta em voz muito sumida:
__ Meu pai, eu fico até quando cá na Quinta?
__ Até ficares boa minha filha! Não te deves preocupar com isso __ acrescenta o pai numa expressão segura que dá à Senhora D. Judite a segurança de que ela precisa. E esta agradecida deixa escapar:
__ Obrigada meu pai! Deus todo poderoso há-de-nos ajudar.
Dias depois chega aos ouvidos de José da Silva a morte do Juiz Antunes. O homem fica abalado, não só pela sua morte, mas também pela falta que este irá fazer como membro do poder judicial daquele Concelho. O homem recorda as suas últimas palavras: "José, o Senhor, tem por acaso testemunhas como foi ele que matou a filha?" "Está bem José, eu vou ver o que posso fazer para o castigar, mas não lhe garanto nada." O homem depois deste pensamento, grita:
Não! Não pode ser verdade
Não pode ver verdade!
Ele tem de ser castigado
Tem de ser castigado
Não é à pancada que se educam os filhos,
Não é à pancada!
Não! Não é com a guerra
Que se constrói a paz!
Não é com a guerra,
É com amor,
É com igualdade,
É com amor, em liberdade!
Quando a mulher o chama ele fica assustado, mas tenta disfarçar. Ela diz:
__ José com quem estavas a falar?
__ Eu? Eu não estava a falar com ninguém ou melhor estava a falar para os cavalos.
__ Para os cavalos?__ Pergunta a mulher muito admirada. __ Ah sim, ultimamente andas a falar muito com os cavalos. Não estarás tu doente?
O homem muda de conversa dizendo:
__ Olha, Isabel, são horas de arranjares a Judite para irmos à injecção. E talvez seja hoje que a radiografia esteja pronta. Vai mulher. Despacha-te.
__ A Senhora D. Isabel deixou o marido e foi arranjar a filha que quase não se podia mexer na cama.
Ao regressar da vila com a filha o José da Silva depois do jantar e, de tudo estar em ordem pede à mulher que fique junto dele para poderem conversar. Ela aceitou. Ele diz:
__ Isabel. A radiografia da Judite, diz o médico, tem uma mancha num dos pulmões e, ele diz que é muito grave e perigoso __ o homem pára de falar. A mulher exclama:
__ É grave e perigoso? Que quer isso dizer? E que vamos nós fazer? A nossa filha vai morrer? A nossa filha! Não. Não pode ser. Tens de fazer qualquer coisa. A nossa filha não pode ter essa doença tão má que o médico diz.
__ Sim, Isabel, a nossa filha pode até não ter essa doença. Os médicos enganam-se muitas vezes, mas temos de prevenir-nos. O médico disse-me que as crianças não deviam aproximar-se da mãe.
A Senhora D. Isabel leva as mãos à cabeça e rebenta num vale-de-lágrimas. O marido logo a abraça para a acalmar e diz:
__ Vá lá, não chores. Tudo se vai arranjar.
Na manhã do dia seguinte a Senhora D. Judite pergunta à mãe:
__ Minha mãe onde está Isabella? Não a vejo desde ontem __ a mãe teve de reunir todas as suas forças para dizer:
__ A Isabella está no jardim a tratar das flores! Sabes, este ano temos muitas flores, como : malmequeres, rosas, dálias, hortências, cravos e tantas outras. E os peixes no tanque este ano também se reproduziram muito mais que nos outros anos.
__ Ah, como deve estar bonito o jardim! Como eu gostava de o ir ver e sentar-me debaixo do cedro a respirar o ar puro e sentir o cheiro das flores __ dizendo estas palavras a mulher cai na almofada. Está tão fraca que o esforço que fez para falar, a deixou inerte.
Quando acordou voltou, como era habito, a perguntar à mãe pelos filhos:
__ Minha mãe, como estão a Maria José e o bebé? Como estão todos os meus filhos? Ai os meus filhos, não os vejo há muito tempo! Porquê, minha mãe?
__ Não te canses Judite, os teus filhos estão bem __ diz-lhe carinhosamente a mãe e acrescenta. __ Tu vais para Lisboa, para te curares da tua doença. Há já onze meses que estás doente, não podes estar nem mais um dia aqui. Vais para o hospital e num mês curas-te. Está bem? E deixa os teus filhos. Eu e a Maria José tratamos deles.
A mulher fecha os olhos de alívio. E sente que pode morrer descansada. Os filhos estão bem entregues. Abre os olhos e volta a perguntar sumidamente:
__ Eu vou para o hospital? Ah!

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Tenho bom coração, bom carácter, gosto da humanidade em geral, gosto de crianças... diversão: gosto de ler, de escrever, conviver, gostava de ter amigos verdadeiros, como divorciada não gostava de envelhecer sozinha, estou em casa sempre que não trabalho... e gostava de ser mais feliz... encontrar alguém para amar e fugirmos à monotonia.