sexta-feira, 27 de março de 2009

CAPÍTULO IX - O ÚLTIMO ADEUS

Depois daquela obscura e temerosa noite Maria José levantou-se da cama, como sempre, antes do nascer do sol. O pai achando ainda poucas as torturas do dia anterior mandou-a, como castigo, para a Quinta dos Barros apanhar figos para secar no almanxar.
Logo depois de chegar à Quinta Maria José caminha, pela propriedade, com uma cesta numa das mãos e na cabeça um grande chapéu de abas largar que, a protegia do sol de Agosto. De seguida ela ouviu a sereia da fábrica que anunciava às operárias, trabalho para aquele dia. Minutos depois passa na estrada, junto à propriedade onde Maria José apanhava os figos, a sua amiga Maria Augusta que ia trabalhar para a fábrica. Esta vendo Maria José a apanhar figos, o que não era o seu habito, pergunta:
__ Maria José! Então? Hoje não vens trabalhar para a fábrica?
__ Não Maria Augusta! Hoje não vou. E não vou nunca mais __ responde Maria José à amiga e acrescenta:
__ Olha Maria Augusta! Tu fazes-me um favor? Trazes-me as minhas tamancas... sim?
__ Está bem. Eu trago-tas... mas olha não sei para quê? Ainda hoje é quinta-feira e a fábrica apitou tão cedo, que deve estar cheia de peixe. E se não vais hoje trabalhar poderás ir amanhã. Mas diz-me cá, porque não vens trabalhar para a fábrica e estás a apanhar figos? __ Perguntou Maria Augusta intrigada.
Maria José antes de responder ficou pensativa. Olhou a amiga nos olhos e por fim diz-lhe:
__ Não Maria Augusta. Não vou trabalhar porque o meu pai mandou-me de castigo a apanhar figos para secar no almanxar... E, eu...
Maria José calou-se. A sua amiga despediu-se, dizendo:
__ Não penses mais nisso! Eu agora estou com pressa, mas amanhã falo com o teu pai para que ele te deixe ir trabalhar. Adeus!
__ Adeus!
Depois da amiga se afastar Maria José vai à quinta para beber água. Quando acaba de beber a água ela continua a sentir sede. Uma sede enorme. Sede que não era de água, mas sim de segurança, de carinho, de compreensão, de amor. Perante esta necessidade, exclama: "oh mãezinha! Ajuda-me! Eu estou só neste Mundo. Não tenho ninguém que me ajude. Só te tenho a ti, mãezinha. Ajuda-me ou chama-me para junto de ti, para assim poderes tratar as negras das minhas costas e das minhas pernas que, tanto me dóem!"
Pensativa, Maria José voltou para trás e caminhou para junto da figueira onde tinha deixado a cesta dos figos quando antes de chegar, junto à cesta, encontrou uma grande corda, a qual tinha sido perdida pelo cocheiro havia algum tempo. Maria José apanhou-a e levou-a consigo para junto da figueira.
Apagar figos não era a especialidade de Maria José, mas apanhou uma cesta cheia de figos que logo despejou na canastra. Depois da cesta estar vazia apanhou cinco grandes figos e com eles faz uma estrela no fundo da mesma. E...
__ Oh, Senhor João! Senhor João __ gritava em altos gritos aflitivos o cocheiro ao chegar à quinta. __ Venham. Venham socorrer a menina Maria José que está pendurada na amendoeira junto ao areeiro. Oh! Ela ainda mexe. Socorro!Socorro! __ O homem continuava a gritar correndo para o corpo já inerte de vida.
João Reis estava na varanda que ficava na parte mais alta da quinta. E estendia ao sol para secar, as alfarrobas que as mulheres tinham apanhado nos últimos dias. Quando este ouve gritos olha em seu redor e, vê a filha debaixo de uma amendoeira, logo em altos berros, grita-lhe:
__ Que fazes aí? Desce daí para baixo desgraçada. Andas ao rebusco de amêndoas? Eu já ai vou...
Ia para descer as escadas quando um homem chega junto dele e, diz-lhe:
__ Senhor João venha ver a sua filha. Ai! Ai meu Deus que grande desgraça que está a acontecer! __ Exclama o homem e correndo para o areeiro junta-se ao aglomerado de pessoas que já lá estavam junto do corpo.
João Reis fica pasmado. Por momentos não diz nada. Depois leva as mãos à cabeça e, num gesto de quem não aguenta aquele desgosto diz:
__ Ó filha. Eu não te bati muito. E só te castiguei hoje. Amanhã ias trabalhar para o teu emprego.
As mulheres que estavam junto do corpo, já cheio de formigas, ao ouvirem o pranto do homem gritam todas ao mesmo tempo:
__ Pai malvado!
__ Assassino!
__ Malvado pai carrasco!
__ Malvado! Tu é que merecias a forca. Anda cá malvado que eu, te tiro a vida. Anda cá, não fujas...
Neste momento chegam as autoridades e antes que as mulheres pudessem mandar as mãos ao homem, estas intervêm.

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Tenho bom coração, bom carácter, gosto da humanidade em geral, gosto de crianças... diversão: gosto de ler, de escrever, conviver, gostava de ter amigos verdadeiros, como divorciada não gostava de envelhecer sozinha, estou em casa sempre que não trabalho... e gostava de ser mais feliz... encontrar alguém para amar e fugirmos à monotonia.