quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

CAPÍTULO XX - A INTRIGA

No clube juvenil, às nove horas da noite de domingo, o salão de baile estava resplandescente de luz. As paredes enquadradas das mais belas pinturas davam ao salão o estilo formal do centenário da sua fundação. No palco, ao fundo do salão, vários instrumentos musicais esperavam ser utilizados. Nas duas filas paralelas de bancadas que circundavam o salão estavam já sentadas a maior parte das associadas e suas famílias. Na outra sala junto ao bar estavam os associados que aguardavam o romper do baile.
_ Prima olha!
_ Quem é?
_ É a vaidade em pessoa _ acrescenta Cecília.
_ É quem?
_ Foi o que ouviste! A vaidade em pessoa...
_ Ah! _ Exclama Maria Augusta e ao olhar a recém-chegada acrescenta: _ Que Lindo vestido!
_ Sim é lindo...
_ É o mais lindo vestido que já vi em minha vida - diz Maria Augusta maravilhada.
_ E o meu não é bonito?
_ Sim... mas aquele é muito mais bonito.
_ Pois é... - concorda Cecília furiosa.
_ Deve de ter custado uma fortuna?!
_ Claro! E sabes para quê? Só para ser a mais bela do baile. Se calhar a lambisgóia quer ser a rainha? Ah! Mas não será. Eu também estou Linda. Só basta dizer que o meu pai gastou mil e duzentos escudo no meu vestido.
_ Mas o teu vestido é mais feio _ diz repentinamente a pequenita Maria José.
_ Mais feio... porquê?
_ Ora... porque eu não gosto dele. E gosto do vestido daquela menina. E ela também é muito bonita. Eu quando crescer vou ser como ela. Não vou mamã?
_ Sim minha filha - diz Maria Augusta sorrindo.
_ Ah! Mas que afronta. Parece que me querem magoar?
_ Não. Não é para te magoar, simplesmente digo o que penso - acrescenta Maria Augusta com naturalidade.
_ Ah, sim! E o que é que pensas?
_ Mas olha... diz-me quem é aquela rapariga?
_ Sei lá! Só sei que não fala a ninguém. E sei também que é neta daquela velha de cabeleira branca que se sentou agora. Ali atrás... não vez?
_ Sim vejo. E então?
_ Ela chama-se Isabella. Trabalha na fábrica. E não deve ter pais. Mora, se não me engano, na aldeia "Luis Francisco", com a avó.
_ Ah!
_ Ah! Porquê?
_ Porque a conheço.
_ Conheces a ela?
_ Não. A ela não... conheço a família dela.
_ Ah! Então quem são?
_ Ela é irmã de Maria josé. Não ouviste falar de uma rapariga que se matou há seis anos atrás?
_ Sim ouvi falar...
_ Pois, nessa altura, ela era pequenina e já estava com a avó.
_ Porquê... não te sei dizer.
_ Então deves de conhecer muito mal a família dela?
_ Muito melhor de que possa imaginar - acrescentou Maria Augusta recordando anos atrás em que ouviu as últimas palavras de Isabella. " Mana pareces dormir". "Estás linda vestida de noiva". "Lá no céu, para onde vais, não há maldade, nem ódio, nem tão pouco gente má". "Lá no céu, mana, só entram os bons". "Mana, quando eu crescer, hei-de-te vingar!"
_ Prima, que tens? Estás pálida. Semtes-te bem?
_ Que tens mamã?
_ Não tenho nada, filha _ tranquiliza Augusta.
_ Não tens nada? Mas estás tão pálida - acrescenta Cecília assuntada.
_ Deve ser das luzes - diz Augusta.
_ À pouco não estavas pálida mamã - diz a pequenita Maria José que tem apenas quatro anos de idade.
_ Augusta anda aos lavabos molhar a testa e apanhar um pouco de ar fresco.
_ Não. Não é necessário...
Neste momento os músicos sobem ao palco e a orquestra faz-se ouvir num ritmo alegre. Os rapazes que ali estavam agrupados dialogavam o seu parecer: à decoração do salão, às esbeltas raparigas. E agora que a música dá sinal de vida, eles procuram o seu par ideal.
Cecília sentada na bancada junto ao palco olha-os convidativa. Instantes depois podemos ver algumas dezenas de pares dançando ao ritmo da orquestra. Cecília de ar carrancudo continuava sentada. E olhava um gracioso par que dançava na sua frente. Deixando escapar: Lambisgóia pensas que roubas os meus pares? Isso é o que vamos ver! Quando o par se aproxima dela, esta estende uma das pernas que logo o par tropeça e por pouco não cai. Isabella prevendo o meditado gesto... pede:
_ O Senhor permite que me afasto?
_ Claro, menina Isabella! Mas só quando a música acabar.
_ Só?
_ Sim. E se me dá licença eu convido-a, desde já, para a proxima dança.
_ Não. Eu não danço mais, porque me vou embora.
_ Vai embora? Mas mesmo agora o baile começou!
_ Sim... mas eu não vim de gosto... e estou a sentir-me mal.
_ Está doente?
_ Não...
_ Está então indisposta?
_ Não...
_ Então não sei porque quer ir embora?
_ Não é por nada - diz Isabella sumidamente.
_ O que disse?
_ Que não é por nada.
_ É por alguma coisa. Não me quer dizer?
_ Não.
_ É pena porque eu estou disposto a ajudá-la.
_ Sim?
_ Sim.
_ Ah!
_ Ah! Porquê?
_ Porque eu creio que o Senhor sabe.
_ Sei? Deixe-me ver. É por causa daquela moça que está sentada junto ao palco?
_ É.
_ Ah! Mas não é caso para isso.
_ Acha que não? E se nós tivéssemos caído?
_ Não era possível porque eu , a tenho nos meus braços. E vou té-la toda a noite. Vamos ganhar os três primeiros lugares. Está bem?
Isabella não respondeu. O rapaz acrescenta:_ Aquela rapariga está furiosa porque não dança. E ainda porque o seu vestido é lindo.
_ Sim? Sei lá... eu não a conheço.
_ Mas eu sim. Conheço-a... e sei que ela fica furiosa com todas as raparigas bonitas. Como vê, ela não é nada bonita e nem tão pouco elegante. É por isso a sua fúria.
_ Ah! Não sabia.
_ Está melhor agora que já sabe o porquê?
_ Sim estou melhor - pronuncia Isabella com um sorriso nos lábios.
_ Ainda bem! Agora já me pode dar a resposta ao meu convite?
_ Claro que sim!
_ E qual é a resposta?
_ A resposta é sim - diz Isabella.
O rapaz parado no meio do salão fica a olhá-la. A sua expressão era apaixonante. Ia para falar, mas a música termina e Isabella dirigiu-se de imediate para junto da avó que estava sentada nas bancadas ao lado de D. Beatriz.
_ Isabella quem é aquele rapaz com que andavas a dançar? - Pergunta Paula, a filha de D. Beatriz.
_ Não sei.
_ Mas eu vi ele falar contigo. Não te disse quem era?
_ Não. Eu também não lhe perguntei.
_ Ah!
_ Ah! Porquê?
_ Ora porquê! Porque eu no teu lugar perguntava-lhe.
_ Mas eu não estou interessada em saber quem ele é.
_ Não?
_ Claro que não! Ele sabe dançar muito bem. E só por isso dançarei com ele.
_ Sim? Queres dizer que já estás convidada?
_ Estou...
_ Eu sei que ele se chama Rui Pedro.
_ Sim? Eu não sabia.
No intervalo da música o auto-falante faz-se ouvir: Senhoras e senhores estamos aqui reunidos para comemorar o centenário da fundação do nosso clube. E como presidente do mesmo tenho o prazer de vos comunicar que neste grandioso baile haverá três grandes primeiros prémios.
Em terceiro lugar: o par que melhor dançar. Em segundo lugar: o par mais gracioso. Em primeiro lugar: a rapariga mais bela será coroada a rainha do baile. E ainda outros prémios que serão divulgados oportunamente.
Os prémios são, respectivamente: uma medalha em prata, comemorativa do centenário, para cada elemento do par. Uma taça também em prata para cada elemento do par. E por último: a coroa de ouro decorada a safiras, com a qual, a rapariga mais bela será coroada e rainha do baile. Atenção! Ainda não acabei. Os rapazes que já tenham o seu par escolhido é favor inscreverem-se, para o concurso, na delegação. Obrigado.

Acabado o intervalo a orquestra voltou a tocar. Os pares preparam-se para iniciar a dança. Entre eles, Isabella e Rui Pedro fazem o par ideal aos olhos da maior parte dos presentes que entre si e em pequenos grupos dialogam em voz baixa.
No palco, ao lado da orquestra está o júri composto por cinco elementos. E com toda a atenção, aos vinte e cinco pares que dançavam no meio do salão, e, de momento a momento iam escrevendo no bloco de apontamentos os considerados movimentos de elegância dos pares que respeitavam e atendiam com rigor às regras do concurso.

A primeira e a segunda dança terminou com aplausos de toda a assistência.
Seguidamente, todos vestidos de branco desfilam em círculo, no salão, vinte e cinco raparigas. Os seus vestidos são mais ou menos iguais no corte. Desfilam por ordem e em três posições diferentes: perfil, frente e costas.
Acabado o desfile, a orquestra pára e um dos elementos do júri tem a palavra: Senhoras e senhores seguidamente vamos assistir respectivamente: aos dois terceiros lugares, aos dois segundos lugares, e, ainda ao único primeiro lugar. Atenção! O segundo do terceiro lugar cabe à menina Deolinda Pinhal e seu par. O primeiro do terceiro lugar cabe à menina Isabella Reis e seu par. O segundo do segundo lugar cabe à menina Margarida Tojal e seu par. O primeiro do segundo lugar cabe à menina Isabella Reis e seu par. Atençaõ! Agradeço que subem ao palco todos os concorrentes premiados. Atenção! Todos os concorrentes premiados.
Depois das apresentações, o elemento do júri acrescenta: Senhoras e senhores temos ainda o prémio para a rainha do baile que seguidamente vou chamar ao palco. É portanto a menina... a menina Isabella Reis. É favor chegar ao palco a menina Isabella Reis.
_ Estou aqui, Senhor Presidente do júri - diz a rapariga junto dele.
_ Aqui, mas como? Sabia que era seu este primeiro lugar?
_ Não. Estou aqui no palco porque tenho mais dois prémios.
_ Muito bem! Muito bem! É... É verdade _ confirma o homem olhando o papel que tem nas suas mãos. _ Parabéns menina Isabella! Ganhou e com justiça os três primeiros lugares _ acrescentou o júri olhando de alto a baixo a rapariga.
Os outros concorrentes dão uma salva de palmas e um a um vão cumprimentar a rainha do baile enquanto se afastam do palco. A assistência dá vivas à rainha, e, pede ao júri que ela seja coroada.
_ Atenção. Muita atenção. Seguidamente vamos assistir à coroação da rainha do baile. Atenção! É favor subir ao palco a menina que veste um vestido branco e se encontra sentada na primeira fila.
_ Sou eu... não sou mamã? _ Pergunta a pequenina Maria José.
_ És sim, minha filha!
_ Deixas-me ir mamã?
_ Sim... vai!
Ao chegar ao palco, o júri pergunta-lhe: - Como te chamas?
_ Eu chamo-me Maria José Elias.
Isabella ao ouvir o nome da pequenita fica pasmada e pergunta-lhe em voz baixa: _ Como se chama o teu papã?
_ O meu papá chama-se Joaquim Elias.
Isabella ao ouvir aquele nome recorda as palavras de sua irmã Maria José: _ Isabella conheces o primo da tua mestra? O Joaquim Elias. Sabes ele disse-me que gosta de mim e eu conheço-o mal e gostava que me desses a tua opinião.
_ Menina Isabella! Abaixe-se para eu lhe pôr a coroa na cabaça.
_ Sim_ responde Isabella olhando a coroa nas mãos pequeninas de Maria José Elias.
Depois da cerimónia e antes de terminar o baile Isabella pede à avó: _ Avozinha vamos para casa é já muito tarde e eu tenho de ir trabalhar amanhã às oito horas.
_ Sim filha vamos embora. Vamos D. Beatriz?
_ Sim D. Isabel! Vamos...
As três voltaram para casa...

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Tenho bom coração, bom carácter, gosto da humanidade em geral, gosto de crianças... diversão: gosto de ler, de escrever, conviver, gostava de ter amigos verdadeiros, como divorciada não gostava de envelhecer sozinha, estou em casa sempre que não trabalho... e gostava de ser mais feliz... encontrar alguém para amar e fugirmos à monotonia.