sexta-feira, 3 de abril de 2009

* * *

Passados seis meses numa manhã cheia de sol, Isabella salta da sua cama dá os bons dias à avó e, diz:
__ Avozinha, sabes o que pensei enquanto dormia esta noite?
A pobre Senhora fechada em luto e cheia de tristeza não pode resistir àquele contentamento da neta... e...
__ Não minha querida, o que se passa?
Isabella aconchegasse na cama da avó e, pergunta:
__ Queres que te diga avozinha?
__ Sim __ repetia a pobre Senhora.
__ Quero. Quero ir para a costura.
A Senhora D. Isabel mandou a neta para a costura. E a coragem perdida aos poucos voltava ao seu coração como por encanto. Não há dúvida que as crianças são a coisa mais maravilhosa, mais pura que existe sobre a terra. Posso até acrescentar que a profecia que diz: "As crianças são uns anjos". Não é apenas verídico. É real.

quinta-feira, 2 de abril de 2009


CAPÍTULO III - O REENCONTRO

Do outro lado da barreira Maria José passava os dias junto da madrinha a Senhora D. Leonor que continuava doente. Maria José tratava ainda dos trabalhos de casa e da criação como uma verdadeira camponesa. À noite esperava o padrinho que chegava do trabalho cansado pelo fardo dos anos que já tinha e ainda do forçado trabalho que lhe impunham no lagar.
O Senhor Lourenço ao chegar a casa sentava-se na cozinha e esperava que a afilhada lhe servisse a sopa. Maria José como habitualmente já tinha preparada uma bacia com água quente e sal diluído para o padrinho mergulhar os pés enquanto comiam. Depois do jantar reuniam-se os três no quarto de Dona Leonor onde falavam dos mais diversos assuntos e principalmente do futuro de Maria José.
__ Maria José tem pai não devemos esquecê-lo e, como tal tem de olhar pela filha quando eu fechar os olhos __ diz a Senhora D. Leonor e acrescenta. __ Ele é casado tem um lar e pode lá ter a filha. Nós temos de o procurar e dizer-lhe que ela precisa dele mais do que nunca.
O senhor Lourenço ao ouvir as palavras da esposa fica pensativo. Ele ainda não tinha pensado que se a sua companheira fechasse os olhos ficaria na solidão daquela grande quinta. Depois de perder a mulher tinha também de perder a afilhada que criou como filha. Era o grande castigo. O castigo de ser velho. Não era justo __ pensou __ mas não tinham seus pais, seus avós e ainda seus bisavós sofrido o mesmo castigo?! O castigo de ser velho não eram apenas os cabelos brancos, as costas curvadas e as pernas pesadas eram também o frio, a fome, a solidão e ainda a repugnância daqueles que eram jovens.
Maria José ao ouvir as palavras da madrinha ficou triste. Ela olhava para um e para o outro desejando falar, mas as palavras não lhe saíam da garganta. Só muito custo disse:
__ Não. Eu não quero ir para casa do meu pai e da minha madrasta.
A Senhora D. Leonor que a olhava com atenta benevolência, disse-lhe:
__ Mas minha querida, mais tarde ou mais cedo, eu parte deste Mundo, e...
O resto das palavras secam-se-lhe na garganta. Os olhos têm lágrimas represadas que o escuro do quarto só deixava ver quando a lareira se reflectia nos rostos dos três entes queridos. O momento foi de dor. Aquele corpo inerte de vida era o corpo da madrinha que foi a sua segunda mãe e, como esta partia agora para nunca mais voltar.
Ao cair da tarde depois do fúnebre Maria José acompanhada do padrinho chagaram à quinta. Ambos olham em redor e tudo lhes parece diferente. As árvores, as flores, o cão, o gato, a criação e até a casa era mais escura... tudo parecia chorar a morte da Senhora D. Leonor. O Senhor Lourenço olhou demoradamente a afilhada e, disse:
__ Maria José amanhã vou falar com o teu pai para te vir buscar. Não! Não digas nada. Apenas obedece ao último pedido da tua madrinha.
Nos grandes olhos verdes haviam lágrimas de desespero, mas logo a coragem as secou.
__ E tu padrinho? __ Perguntou a custo.
__ Eu fico aqui na quinta __ disse o Senhor Lourenço. __ Podes cá vir quando quiseres.
Ao romper da aurora no dia seguinte o Senhor Lourenço saiu para procurar o pai da afilhada. João Reis era um homem duro com pouca sensibilidade, mas cumpridor dos seus deveres e sobretudo muito orgulhoso. Logo que foi posto ao corrente do sucedido foi buscar a filha para casa. Entregou-a à mulher que a recebeu de braços abertos e logo se tornaram mãe e filha.

* * *

Maria José conheceu a sua irmã Teresa e o seu irmão João, mas a madrasta disse-lhe que ela tinha ainda outra irmã que, não estava em casa. À hora do jantar quando todos estavam à mesa Maria José perguntou:
__ Mãe e a minha irmã não vem jantar?
__ Não __ respondeu a madrasta. __ A tua irmã não vive aqui em casa, mas amanhã vamos as duas à Quinta das Rosas para a conheceres, e vais conhecer também a minha mãe que deves tratar por avó.
No dia seguinte Maria José levantou-se cedo. Vestiu o seu melhor vestido. Penteou o seu longo cabelo cor de ouro. Depois de pronta sentou-se na cama à espera que a mãe lhe fosse dar o laço no cabelo.
__ Bom dia Maria José __ cumprimenta a mãe.
__ Bom dia mãe! Eu estou à vossa espera para dar um laço no meu cabelo.
__ Sim. Então levanta-te para eu atar o teu cabelo e dar o laço na fita. Está lindo...
__ Mãe eu fico assim bonita para ir ver a minha irmã?
__ Sim. Tu estás linda, mas anda comer para chegarmos cedo à Quinta das Rosas.
Durante o percurso mãe e filha não trocaram uma palavra. Ambas pareciam estar desejosas por chegar ao destino. Já na quinta Maria José pergunta:
__ Mãe, como é a minha irmã?
A pergunta ficou sem resposta. O cão ao sentir as recém-chegadas corre aos latidos e aparece logo a Senhora D. Isabel. Depois das apresentações a senhora D. Judite acrescenta:
__ Mãe a Maria José quer conhecer a irmã, ela está em casa?
__ Não. Não está. Ela foi à venda do Senhor Monteiro fazer um recado, mas entrem que ela não demora. Enquanto esperam a Senhora D. Judite e a mãe, a senhora D. Isabel falam dos mais diversos assuntos. Maria José olhava-as impaciente pela demora da irmã.
Ao latido do cão Maria José estremece. Ela sente vontade de se levantar, mas tudo é tão forte e confuso que não consegue. A recém-chegada entra e...
__ Maria José és tu? Que fazes aqui em minha casa?
__ Eu... eu vim visitar-te __ respondeu Maria José a custo ao mesmo tempo que olha a madrasta. Esta sem saber o que se passa fica confusa e pergunta:
__ Isabella já conhecias a Maria José?
__ Sim minha mãe. A Maria José era minha companheira de carteira na escola e a minha melhor amiga.
Abraçam-se.
A Senhora D. Judite e a Senhora D. Isabel ficam olhando as pequenas e naquela confusão não sabem que dizer.
As duas grandes amigas estavam finalmente juntas. Como é grande o destino, que ao contrário da vida é eterno, mas todavia mau e bom como esta.
__ Avozinha posso mostrar as minhas bonecas à minha amiga?
__ Podes sim querida __ respondeu ternamente a avó.
As pequenas afastam-se para o alpendre da casa. As duas mulheres ficam olhando aquelas duas irmãs, que sendo filhas do mesmo pai tinham rostos tão diferentes, mas eram tão iguais o seu carácter.
As duas irmãs sentadas no alpendre brincavam com as bonecas e estavam tão felizes que não mais lembraram o motivo daquele encontro. Quando a avó as chamou ficaram ambas em sobressalto. Entre olharam-se e logo surgiu a pergunta:
__ Maria José como foi que encontraste a minha casa? Perguntaste a alguém conhecido?
__ Não __ respondeu Maria José.
__ Então conta cá, como foi...
Maria José olhava a sua grande amiga e queria contar-lhe como tudo aconteceu, mas nem tinha coragem. Para ela tudo aquilo lhe parecia um pesadelo e uma grande coincidência. A avó voltou a chamar e ambas correram ao chamamento da Senhora D. Isabel que as esperava.
__ Minhas queridas hoje vão passar o dia juntas para poderem brincar com as bonecas e outras brincadeiras ao vosso gosto. Agora vamos almoçar.
Isabella ficou muito contente, mas continuava a não compreender. Depois de se sentarem à mesa, pergunta:
__ Avozinha, a Maria José veio sozinha. Como vai a madrinha dela saber que fica cá?
A mulher perante a interrogação da neta compreende que ela ainda não sabe que a Maria José é sua irmã. A Senhora D. Isabel enche-se de coragem para lhe dar a noticia.
__ Isabella a madrinha de Maria José morreu e ela vai ficar connosco, isto é, em casa dos teus pais e sabes porquê? Porque a Maria José é tua irmã.
A criança ao ouvir aquela confissão fica pasmada. Olha a avó ao mesmo tempo olha a amiga e pergunta:
__ É verdade? É verdade avozinha? Maria José é verdade? Tu sabias?
A irmã a muito custo responde:
__Sim. Sabia...
Abraçaram-se. Os seus olhos tinham lágrimas. Lágrimas que não eram agora de tristeza, mas sim de reencontro que jamais tinham julgado possível.

quarta-feira, 1 de abril de 2009


CAPÌTULO IV - O REGREDDO

No mês de Maio no grande jardim da Quinta das Rosas tudo era belo. No tanque de água fria, muito azul pela sombra do limo havia peixes de várias cores. A Senhora D. Isabel contemplava com saudade toda aquela paisagem que outrora as suas mãos ajudavam a embelezar. No seu espírito renasceu subitamente a vontade de viver, de tratar das flores do seu jardim desprezado há anos.
Na manhã seguinte acompanhada da neta a Senhora D. Isabel decidiu limpar o jardim das ervas ruins. Planta aqui e além pés de malmequeres, de hortenses, de roseiras e de orquídeas. Desbasta ainda dos canteiros a grama que parece não ceder, às outras plantas, a liberdade de crescimento.
Depois de um dia de trabalho, no contacto com a Natureza, ambas se sentiam felizes e ao mesmo tempo fatigadas. Acabadas as tarefas daquele dia foram para a cama logo após o jantar. Pelas altas horas da noite o cão lá longe ladra e corre depois para a porta como que a anunciar a chegada de alguém que, se aproximava da quinta. A mulher acorda em grande sobressalto, desce da cama e caminha de pé ante pé até à porta.
Ela ouve passos. Trémula reza uma oração. Ao mesmo tempo o cão pára de ladrar. A mulher ouve uma voz que parece reconhecer. Da garganta sai um grito, um nome mal pronunciado:
__ "José".
A mulher mal pedia manter-se de pé, mas logo reúne todas as suas forças e corre ao quarto da neta.
__ Isabella acorda, o avozinho está a chegar.
A criança meio adormecida e sem compreender a avó, pergunta:
__ O avozinho está a chegar de onde?
O recém-chegado bate à porta enquanto pronuncia o nome do cão.
__ Leão sou eu, o teu dono.
Este desconfiado volta a ladrar.
Do outro lado da porta estavam avó e neta como que pregadas ao chão. Elas olhavam uma para a outra sem nada pronunciarem. À segunda pancada na porta Isabella puxa do ferrolho desta e abre-a. O homem entra. Abraça as duas e diz:
__ Não tenham medo sou eu, mas por favor não façam perguntas e deixem de me olhar assim. Preciso de água quente para lavar os pés e dormir para descansar o corpo, que há cinco anos é torturado.
A Senhora D. Isabel deixa cair dos olhos duas lágrimas que rolam pelas faces enrugadas. Sem perguntas como lhe pedia o marido vai para a cozinha aquecer a água. O homem descalça as botas quase sem solas e sem biqueira que deixam transparecer os dedos isentos de unhas. O rosto coberto por grande barba branca. As roupas sujas e rotas deixavam ver todo o martírio do seu possuidor. Isabella olhava o seu avô com grande espanto. Receosa pergunta:
__ Avozinho de onde vens com essa roupa tão rota e suja?
O homem olha a neta e não responde. Num impulso puxa-a para si e diz-lhe:
__ Netinha o avozinho vem de muito longe e está muito cansado, por isso vou descansar e amanhã falaremos.
A criança fica calada, mas não deixa de olhar o avô que não parece o seu avô, mas sim um velho mendigo, daquela maneira vestido. A mulher chega com a água quente numa bacia e com uma toalha turca. Ao olhar os pés do marido reclama assustada:
__ Malvados arrancaram-te as unhas? E que mais te fizeram? Olha? Olha como tu tens os dedos em ferida! E até cheiram mal. Mas como pudeste andar até aqui? Quem foi que te trouxe?
A mulher enquanto cuidadosamente lavava os pés do marido que todos julgavam morto fazia perguntas. Perguntas umas atrás das outras, mas as suas perguntas não tinham resposta ou melhor o homem não queria recordar. Não desistira do seu idealismo mesmo depois das grandes torturas porque passou naqueles anos de exílio. Estas não o venceram, pelo contrário avivaram mais o seu desejo de libertar o povo da fome, do trabalho intenso, dos ordenados de miséria. Era urgente que os homens torturados não se deixassem abater. Eles tinham de ser fortes para suportar não só os exploradores como os explorados. Estes últimos que pela ignorância e medo defendiam não os seus interesses, mas o desejo dos patrões que os exploravam. A mulher como o marido não lhe respondeu ficou calada e logo compreendeu que ele precisava de descansar.
No outro dia já o sol ia alto quando José da Silva acordou do sono repousante, de que havia anos não conhecia. Junto dele estavam a mulher e a neta. Ambas caladas olhavam-no. Até que ele diz:
__ Bom dia minhas queridas.
__ Bom dia disseram as duas ao mesmo tempo. Podemos conversar? __ Perguntou a mulher.
__ Que queres que te diga? __ Pergunta ele olhando a neta.
A Senhora D. Isabel manda a neta para a cozinha preparar o café da manhã. Depois desta sair do quarto diz para o marido:
__ José há cinco anos que saíste para a vila e só agora voltas. Eu sinto que tenho o direito de saber o que aconteceu.
O homem perante a insistência da mulher começa a contar o que se passou.
__ Dois homens que não conheci na altura pediram, com uma arma na mão, que os acompanhasse. Eu tentei resistir mas sem resultado. Acompanhei-os. Não sei para onde me levaram, só sei que fui transferido ao fim de algum tempo. Eles vendaram-me os olhos, mas compreendi que ia para Lisboa. Quando lá cheguei tiraram-me a venda dos olhos. Chamaram-me porco comunista e foi ai que soube que estava preso como comunista.
A mulher interrompeu. Não podia ouvir aquelas palavras. E tu o que lhes disseste, perguntou:
__ Nada...
__ Oh homem porque te metes tu nisso? Tu sozinho não podes mudar o Mundo!
__ Está bem mulher dizes bem. Sozinho não posso mudar o Mundo, mas todos juntos de mãos dadas podemos vencer...
__ Mas vencer o quê homem?
__ Vencer aqueles que não querem trabalhar. Aqueles que querem que nós povo trabalhemos de sol a sol e que o dinheiro que nos pagam mal chega para comer pão seco. E ainda aqueles que levam os nossos filhos para a guerra e os obrigam, em nome da Pátria a matar homens, mulheres e crianças que também têm fome e que apenas lutam pelo direito à vida, pela liberdade. Mas mulher queres ouvir o resto?
__ Oh homem! Eu só quero saber como vieste para casa __ disse a mulher impaciente.
__ Depois de tanto interrogatório e tantas torturas mandaram-me para casa, neste estado. Sem roupas, sem dinheiro e sem poder andar. Mas aos poucos cheguei a casa. Pelo caminho pedi esmola e abrigo. Apenas foram quinze dias para chegar ao pé de ti, mulher.
Os olhos encheram-se de lágrimas. A garganta deu um nó e o homem inerte cai na almofada. Mas ele desta vez tem a mulher para cuidar dele e não o médico que lhe dava drogas.

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Acerca de mim

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Tenho bom coração, bom carácter, gosto da humanidade em geral, gosto de crianças... diversão: gosto de ler, de escrever, conviver, gostava de ter amigos verdadeiros, como divorciada não gostava de envelhecer sozinha, estou em casa sempre que não trabalho... e gostava de ser mais feliz... encontrar alguém para amar e fugirmos à monotonia.